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Vínculos na geração do desapego

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De uns tempos para cá, tenho observado que as pessoas orgulham-se de gritar aos sete ventos que estão apropriadas de um sentimento/filosofia de vida, defendendo fielmente que devemos viver imersos no mesmo e sem ele não é possível estar bem de fato. E caso você pense diferente disso, provavelmente será considerado alguém antiquado, dependente de outras pessoas, sem luz própria, com dificuldades de conquistar seus sonhos e trilhar o seu caminho por conta própria. Consegue arriscar qual seria a palavra que nomeia o que estou me referindo?

Chama-se “DESAPEGO” (em letras garrafais para ficar bem caricato em relação ao comportamento das pessoas que insistem em viver no extremo desse mood.). Se pegarmos o significado primordial desta palavra, até nos remete a algo potencialmente negativo: “Falta de apego; característica ou condição de quem é desapegado; que demonstra falta de amor por alguém; despego. Que não demonstra interesse; particularidade da pessoa que expressa indiferença; desprendimento.”. Sei que quem defende essa ideologia, provavelmente, não se dá conta desta definição. Ampliando o campo semântico dessa palavra, quem abraça essa causa está, provavelmente, buscando trilhar o seu próprio caminho sem a interferência de terceiros, tomados pelas ideias de que muitas vezes abrimos mão da nossa felicidade autêntica para atender demandas dos outros e acabamos nos perdendo nisso.

Acontece que a existência sempre se configura também a partir do nosso contexto histórico: estamos inseridos em um mundo que passa por determinada era e esta é sempre dotada de suas peculiaridades. Assim, é mais que natural que tudo isso influencie o comportamento das pessoas, assim como cada pessoa afeta e contribui para a construção do coletivo/social. Não acho que o meio social é o único motivo responsável por constituir o comportamento, hábitos e emoções  das pessoas – acredito que somos todos indivíduos que nascem livres, e assim permanecemos por toda a vida, para fazermos as escolhas que nos tragam mais satisfação. Fato é que, inevitavelmente, estamos imersos em um universo e absorvemos muito dele – o que faremos com aquilo que nos vem ao encontro que é o ponto chave, aí que entra a nossa responsabilidade/liberdade para darmos o nosso toque e direcionamento singular diante da vida.

Neste momento, estamos inseridos em um contexto de sociedade pós-industrial, fortemente marcada pelo consumismo e pela fluidez de todas as coisas. Temos a impressão de ter acesso a infinitas possibilidades de maneira muito mais rápida, pois, de fato, em alguns cliques se faz mais amigos, flerta, tem acesso a fotos de pessoas as quais você não vê há tempos (ou até daquelas que vê com menos frequência do que gostaria, mas como acompanha pelas fotos e demais atividades virtuais, tem a sensação de que estão mais próximos e acabam se vendo menos ainda), compramos passagens, roupas, eletrodomésticos, cachorros, fazemos reuniões, agendamos vistorias, mandamos convites para eventos, escolhemos a decoração da nossa casa. Ufa, facilitamos a nossa vida! Por mais que saibamos que “tempo é dinheiro” e toda essa presteza do mundo moderno nos poupe muito tempo, fico me perguntando, para quê tanta pressa? Não nos demoramos mais em coisas que nos enchem de afeto e sentido. Naquelas que são palpáveis e que envolvem laços invisíveis, garantindo que os momentos mais singelos fiquem registrados em nossa memória. Como, por exemplo, ir a uma loja escolher itens para a casa. Você leva a família, vocês conversam entre si, imaginam como seria aquele objeto na casa, olham o objeto de perto, leva-se em consideração a opinião de todas as pessoas da casa. Hoje em dia é tudo muito prático: uma pessoa pode decidir e já comprar pela internet. Quando chegar, está ótimo. Porque se foi rápido, está valendo, menos um item da nossa “to do list” para ser resolvido. Desta forma, o que teve mais valor, foi a velocidade com a qual o processo foi concluído, nada além disso.

Sim, de fato essas simplicidades do mundo moderno tem um lado oportuno e benéfico, já que temos cristalizada a ideia de que sempre precisamos poupar tempo.  Mas convido vocês a pensarem por outra perspectiva. Considero importante entendermos e nos questionarmos o quanto temos encurtado tantos momentos em nossas vidas em prol de vivermos correndo e querendo reduzir a duração de tudo o que fazemos. Deste jeito, podemos até conseguir dar conta de muitas atribuições, mas qual é o sentido disso, se vivemos esgotados, no nosso limite físico e emocional, com a ansiedade nas alturas? Deixamos de nos demorar nas situações, saborear o caminhar e a construção de sentidos que só adquirimos experimentando as coisas. Parece que hoje já vem tudo pronto. Nisso, estamos abarrotados de informações e carentes de experiências mais aprofundadas e enriquecedoras, daquelas que tocam lá na alma e ficam guardadas para sempre.

Não fica difícil perceber que acabamos nos relacionando uns com os outros também desta forma. Não se tem mais a mesma paciência e tolerância para sentimentos como tristeza, angústias e insegurança, por isso busca-se, tão comumente, válvulas de escape como consumir, trabalhar, beber ou ficar conectado com o mundo virtual incessantemente. Quando outra pessoa nos acompanha, parece que ela e o relacionamento só servem até o momento em nos trazem paixão, euforia, alegria e nos atendem dentro de tudo aquilo que esperamos quando projetamos uma relação ideal. Esquecemos que, tratando-se de outra pessoa, ela também vem carregada de estórias, dores e limitações. Quanto mais envolvidas duas pessoas estiverem, mais aparecerá o lado não tão bom e apaixonante, mas que faz parte de todos nós. Enquanto tentarem negar isso, possivelmente viveremos relações cada vez mais superficiais e efêmeras e, provavelmente, isso justificará cada vez mais o desapego, tão popular nos dias de hoje.

Se não nos permitirmos ser quem somos e não aceitarmos o outro tal como ele é – diferente de como gostaríamos que ele fosse – viveremos em fuga de nós mesmos, correndo cada vez mais, intensamente cansados, pensando cada vez menos (sim, pensar demanda tempo, empenho e entrega!), tomando informações prontas e impessoais como verdades nossas, demorando cada vez menos em detalhes e nos esquecendo que viver é um conjunto de sutilezas que vamos colecionando ao longo desse período chamado vida. Nesse enredo, que já vem acontecendo há um tempo, eu percebo as pessoas cada vez mais desapegadas, porém, igualmente infelizes e vazias. Não vejo muita autenticidade nesse “Desapego”, percebo mais como um eco, uma fuga para não se mostrar por inteiro, já que desvelar o nosso lado mais “morno” é facilmente confundido com fraqueza. E uma vez que não damos espaço para as nossas próprias infelicidades, como poderemos lidar com as dos outros, não é mesmo?

Eu me pergunto aonde pretende-se chegar com tudo isso, uma vez que pressa envolve abrir mão de uma série de vivências que só são possíveis em um caminhar mais calmo e sereno. Desapego, por sua vez, envolve menos cuidado, compreensão, atenção e tudo aquilo do campo dos afetos que é, impreterivelmente, humano. Imagino que quanto mais desapego, mais pressa, mais fuga e mais adoecida se encontrará a nossa sociedade.

Penso que sempre é tempo de repensarmos a nossa forma de estar no mundo, assim como considero que criar vínculos é fundamental para passarmos pela nossa existência de forma mais plena e proveitosa. Isso não significa depender do outro para estar bem, mas estar suficientemente satisfeito e realizado com você mesmo e, por isso/com isso, dar o seu melhor para a outra pessoa e aflorar aquilo que ela tem de melhor. Desapego, a meu ver, só de roupas, de quem já não nos faz bem, do trabalho que torna a nossa rotina um fardo, do passado que engessa o seu presente… No mais, penso que temos que viver, nos entregar e buscar potencializar as nossas alegrias e amenizar nossas tristezas dividindo-as com outras pessoas. Viva a intimidade, a cumplicidade, a liberdade de sermos nós mesmos e a paz que só os verdadeiros vínculos nos permitem ter!

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