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Transformar-se: privilégio de quem sabe silenciar e olhar para si

 

Nossa vida é demarcada por um caráter temporal e finito, difícil e angustiante de ser olhado desde sempre, pelo fato de nos levar a concluir que somos limitados, que mesmo que tenhamos muita vontade e condições de realizar tudo aquilo que desejamos, não conseguiremos cumprir tudo, sempre faltará alguma coisa. Acontece que vivenciar esta limitação em uma época onde tudo é tão “Yes, we can.”, basta querer e fazer acontecer, onde todos os sonhos parecem alcançáveis, todas as metas são possíveis e muitos são os caminhos que podem te levar para tais, gera, no mínimo, algum desconforto e estranhamento.

Heidegger e Sartre, filósofos existenciais do século XX, defenderam posições sobre a “nadidade” do homem, onde consideram que somos um “nada”, assim, coisa/pensamento/filosofia de vida alguma nos define e nos determina aprioristicamente – somos seres construídos e revelados a partir de nossa própria existência. Este conceito de sermos “nada” é percebido pelos existencialistas como abertura, uma vez que sendo “nada” tem-se a possibilidade de ser tudo. Sendo assim, nos constituímos através das nossas relações com as pessoas e com as coisas, com a maneira singular que buscamos alcançar o sentido da nossa vida através de nossa articulação particular com o “estar no mundo”.

Neste atual momento, vivenciar o mundo, configura estar diante de infinitas possibilidades. Deste modo você pode (e alguma cobrança diz que, na verdade, DEVE) modificar tudo aquilo que não está bom. Pode cortar o cabelo para renovar as energias, sair do seu emprego de anos e tentar a sorte como autônomo, terminar um longo relacionamento e dar a volta ao mundo, casar, descasar, mudar de casa, mudar a casa toda sempre que bem entender e puder, mudar de cidade, profissão, de carro, de cerveja preferida, de salão de beleza, de grupos de amigos, de dieta, de esporte, de estilo musical… Ufa! Quantas coisas podemos mudar, quantas mudanças podem acontecer ao longo de um único dia. Ou então, quantas vezes em um dia alguém pode se sentir angustiado por não saber o que escolher, por sentir uma vontade súbita de mudar algo. Agora pense se, talvez, este processo não seja potencializado por esta forma impessoal a qual estabelecemos com a nossa existência, onde assistimos a todo tempo a vida de outras pessoas e recebemos uma enxurrada de modelos e opções a serem seguidos, acabando, assim, por nos desconcentrar daquilo que nos é mais próprio: a nossa singularidade.

Sinto como se as mudanças estivessem expostas em prateleiras e disponíveis para quem se interessar em adquiri-las, deste modo, as pessoas acabam também por mudar através de um movimento impessoal, a partir de uma demanda que vem de fora. Ora, se o que todo mundo faz ao primeiro sinal de angústia (ou tédio) é mudar o que parece não estar bom, por que eu não deveria fazê-lo? Acontece que a mudança de verdade – aquela transformadora – leva tempo, se dá de “dentro para fora”, é amadurecida no silêncio, através de um despertar muito íntimo e natural, com apropriação de sentido. Apropriação esta que vem somente quando nos escutamos, percebemos que algo precisa ser mudado e aí entramos gradativamente neste processo de mudança. O que podemos chamar de fato por metamorfose, acontece com o exercício da liberdade individual de poder ser o que quiser e se transformar quando e quantas vezes sentir que deve, tendo a responsabilidade por todas as consequências que vierem.

Se as mudanças seguirem também a lógica do nosso mundo tecnocrata, científico, “calculante”, não haverá espaço para sermos tomados por um sentimento que vem do nada, comunicação interior, que não tem bem nome, que não sabemos ao certo explicar, mas que quando se transforma em um pensamento mais concreto, nos dá frio na barriga e um medo gostoso de sentir, seguido de uma voz que nos diz seguramente: “É isso!”. Isto só acontece ao acaso, sem hora marcada, simplesmente vem e nos toma incondicionalmente. Mas, infelizmente, não há espaço para o acaso onde a voz do mundo sempre vem na frente e determina o que precisamos.

O que fica acaba sendo um esvaziamento de sentido, as relações com as pessoas e as coisas que nos cercam se tornam cada vez mais empobrecidas, sentimos dificuldades cada vez maiores em nos conhecermos e saber o que de fato queremos. Notamos inúmeras possibilidades ao nosso redor, somos estimulados a querer cada vez mais coisas, mas temos enorme dificuldade e falta de inciativa para realizá-las. Como li recentemente em um texto da jornalista Eliane Brum, “Nada mais limitante do que acreditar não ter limites.”. Não gosto de reduzir nada, mas sinto que essa frase ilustra adequadamente essa peculiaridade dos dias de hoje. Queremos tanto, tanto, são tantas as opções, posso ser e me transformar em tantas versões, que não consigo fazer nada, ou quase nada. E, muitas vezes, quando conseguimos, não vem um sentimento recompensador, fica aquela sensação: “Acho que não era bem isso.”.

Acredito, fielmente, que não tem muito segredo para nos sentirmos melhor com relação às nossas escolhas, mudanças, transformações e construção de sentido na nossa existência – o caminho será sempre o de olhar para si, conhecer-se, escutar-se, saber o que é genuinamente seu e o que é apenas decretado pelo mundo e já estava pronto antes de chegar até você. Ao contrário das coisas que já são dadas como prontas e acabadas, somos todos seres inacabados e em constante construção.

Pensar diferente disso, só traz a ilusão de que em algum momento, chegaremos a uma etapa da vida onde alcançaremos totalmente a plenitude e nela permaneceremos para sempre. Não, isso não acontece. O que não é ruim – quando aceitamos isso, valorizamos mais cada momento vivido, as pessoas, as escolhas, oportunidades e, principalmente, quem nós somos, sabendo que SER envolve empenho para construir-se e reconstruir-se muitas vezes ao longo do caminho, sempre guiado pela busca de si mesmo.

 

 

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