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Síndrome do culpe a Yoko Ono

* Texto de Helena Vitorino e publicado no dia 15 de janeiro de 2016

Cresci ouvindo que a Yoko Ono foi a responsável pela desintegração dos Beatles.

Mesmo nos círculos menos inteirados sobre a música dos Beatles – e até daqueles que só lembram dos nomes John Lennon e Paul McCartney como integrantes do grupo – frequentemente ouvia máxima dos que não se conformaram com o fim da banda: foi a Yoko Ono, aquela bruxa.

Particularmente, nunca fui fã dos Beatles. Guardo certa consideração pelo John Lennon, e creio que mais pelo mito do que pela música em si. Mas depois de estudar essa máxima, que alcunho de “Síndrome do Culpe a Yoko“, eu descobri a verdade: sou fã mesmo é dessa mulher.

O trabalho artístico da Yoko Ono é dos mais intimistas, conceituais e introspectivos que há na esfera da arte performática e experimental. E o próprio John Lennon afirmou em entrevista que foi a instalação artística de Yoko, um teto de vidro que trazia a palavra  “Sim!”, que o instigou a conhecer aquela artista de peculiaridade tão extrema. Se o próprio Lennon – que era quem dormia e acordava com ela – deixou mais do que claro que foi o talento e a ousadia artística de Yoko que o conquistaram, por que ainda insistem em etiquetá-la como A Megera da Separação dos Beatles?

Essa questão me atiçou quando um grupo de amigos quis justificar a ausência de um companheiro como culpa da nova namorada. É óbvio que novas experiências nos apresentam novas influências, e que novas influências tendenciam nossas escolhas para perspectivas até então não conhecidas. Mas foi aí que começaram a pesar: não foi a influência do relacionamento – ou até mesmo da namorada – que o afastou do grupo, mas a “loucura” e o “egoísmo” da menina, que “aprisionava” um cidadão de vinte e quatro anos no apartamento e o “proibia” sistematicamente de estar com os amigos. Tudo isso sem sequer conhecer a garota.

Aqui entre nós: sabemos que relações possessivas podem levar muitas pessoas ao extremo. Pela insegurança, pela cultura machista ou por tradições patriarcais. Mas em qual momento da história o livre arbítrio de um homem maior de idade e vacinado pode ser corrompido pelo poder maligno de sua namorada? Sem questionar as torturas e tensões psicológicas que alguns e algumas aplicam nos cônjuges, me diga: quão comum é culpar, única e exclusivamente, a namorada ou esposa por toda transformação de comportamento do seu cônjuge?

E aí voltamos com a Yoko. Artista, ativista, pacifista, cantora e muitas outras coisas – dentre elas, companheira de John Lennon. E mesmo saindo da boca do homem que era por Yoko e para Yoko que ele levantava todas as manhãs, a voz que a chamava de “culpada” ganhou mais corpo ainda com a morte de Lennon. Por que essa satanização?

Ignora-se completamente – ou insiste-se em ignorar – que mesmo antes do fim da banda, os membros dos Beatles já não convergiam em ideais e perspectivas de carreira. Lennon estava transformando seu próprio gênero, o que impactava os elementos dos Beatles, e as interferências e opiniões de Yoko nas produções ocorreram a convite do próprio Lennon. Na mesma época, não se decidiam sobre um empresário, e tudo isso culminou no fim da banda. É chato? É chato. Acontece? Acontece! E onde é que entra a “desgraçada” da Yoko Ono nessa história? Entra no discurso machista – desculpe, mas vocês vão ter que engolir – que ela é a “causadora” do mal dos Beatles. Assim como Elza Soares foi a “causadora” do alcoolismo de Garrincha. Assim como Eva foi a “causadora” do inferno eterno oferecendo a maçã pro homem. Assim como a garota-desconhecida era a “causadora” do sumiço do colega.

É o que chamo de Síndrome do Culpe a Yoko – uma estratégia psicológica para manter a glória dos Beatles intacta, depositando os transtornos e incongruências na mulher; ou para manter a genialidade e malemolência de Garrincha intactas, depositando as fraquezas e vícios na mulher; ou até mesmo para manter a pureza e a fidelidade de Adão intactas, depositando toda falsidade e traição na mulher. Mantenha-o limpo e deposite a podridão na mulher.

E quer saber?

Yoko Ono transitou desde os primeiros dias de vida entre a vida de luxos de uma família rica japonesa e a fome e mendicância depois do bombardeio de Tóquio. Transitou entre continentes durante a Segunda Guerra Mundial, e transitou entre o conservadorismo da família tradicional e as excentricidades bizarras que despontavam no seu íntimo na adolescência. Transitou entre críticas ferozes e agradáveis na música, na arte e na performance.

Yoko Ono foi forçada pela família a se casar aos vinte e três anos de idade. Depois de alguns anos, veio o divórcio, e Yoko entrou em depressão profunda. Seu segundo casamento durou meses. Dele, nasceu sua primeira filha, Kyoko Chan Cox. O pai da menina a sequestrou durante o período pela disputa de guarda, alegando incapacidade de Yoko, e conseguiu ficar com a criança. Depois disso, ele rebatizou a menina sob nome de Ruth Holman e sumiu. Yoko só conseguiu encontrá-la quando Kyoko já tinha trinta e cinco anos.

Depois disso tudo, meu aviso é: muito cuidado com a Síndrome de Culpe a Yoko. Ela é comum em homens e mulheres, de todas as idades, e percorre o submundo das cultura machista. Antes de chamar a Yoko Ono de bruxa, bunda murcha e destruidoras de bandas, considere tudo que ela passou para se manter como artista, como mulher, e sã.

Ser a “viúva megera” do maior ídolo britânico deveria pesar mil vezes mais quando você casou forçada, teve sua filha sequestrada e viveu à margem de sustentar-se pela arte experimental. Mas não: provando que é muito mais superior do que nós, Yoko Ono, no auge de seus oitenta e dois anos, é a maior mantenedora do legado de Lennon: fundou memoriais, museus, exposições, bienais e eventos filantrópicos em homenagem ao falecido marido. E você, portador da Síndrome de Culpe a Yoko, o que você fez além de repetir o jargão?

Originalmente publicado em As Mina na história

Imagem de destaque: Ivor Sharpe

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