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Tira a mão da minha cintura

* Texto de Bianca de Queiroz publicado no dia 19 de dezembro de 2015

Sábado à noite, festa bombando, gente bonita e som alto. Uma moça se aproxima de um cara e segura em sua mão. Ele ignora a garota que, insistentemente, repete o gesto com um pouco mais de força. “Posso dançar com você?”, ao que o garoto só balança a cabeça em negativa. Ela, não satisfeita, continua. “Calma. É só dançar”, e ele, já aparentando estar incomodado com aquela história, responde que está calmo, só não quer dançar. De volta ao grupo de amigas, ela começa a disparar uma série de comentários e ofensas, questionando como um cara “tão feio” poderia dar um fora numa pessoa como ela. As amigas todas caem na gargalhada, falam alto e olham na direção dele, como se esperassem alguma reação. Mas ele não faz nada, e apesar de não abaixar a cabeça, dá um jeito de sair logo daquele lugar.

Desnecessário apontar a óbvia inversão de gêneros na cena acima. O cara, na verdade, era uma mulher. E essa mulher era eu. Fiquei muito tempo com isso martelando a minha cabeça e decidi que tinha que escrever algo sobre, não poderia deixar passar em branco e virar uma (má) lembrança. O cara invadiu o meu espaço sem minha permissão, me ofendeu e ridicularizou na frente de outras pessoas. E pior: pra muita gente essa é uma atitude banal, que faz parte do jogo, que mulher também faz na mesma medida e que, no fundo, nós mulheres gostamos de homem que dá em cima, gostamos de ser chamadas de “gostosa” por estranhos e que quando dizemos “não”, na verdade estamos fazendo charme pra “valorizar o produto” (até porque, somos nós quem devemos “nos dar ao respeito”, né?).

Quebrei muito a cabeça pensando em como abordar esse tema: se deveria discorrer sobre feminismo, fazer uma lista de atitudes machistas que vivenciamos dia a dia, ou um ensaio sobre o patriarcado. Mas o que me parece mais urgente é cair por terra com essa afirmativa (criada por homens para justificar suas próprias atitudes) de que mulher gosta de ser cantada, que “delícia, te chuparia todinha” é elogio e que se estamos sozinhas, na balada ou na rua, estamos disponíveis e loucas para ouvir o que pensam da gente. Colhi relatos de amigas para, a partir deles, explicar que cantada e assédio andam lado a lado e devem ser combatidos na mesma medida. Vai ser longo, mas se você chegou até aqui é porque o assunto te toca de alguma forma, então segura aqui na minha mão e toma um Dramin, que a coisa aqui é de embrulhar o estômago:

O inferno dos machistas

  1. Quando tinha 15 anos, M. resolveu passar o ano novo na praia com as amigas, curtindo os shows e enchendo a roupa de areia (aquelas coisas que a gente só faz na adolescência). Em certo momento, passando no meio de uma multidão de gente, M. sente uma mão puxando seu cabelo bruscamente, ela cai pra trás e a mão se transforma num cara, que a beija na boca. Ela partiu pra cima dele, que reclamou que ela estava muito “nervosinha”. Ninguém fez nada. “Aparentemente você não pode ir pra balada de cabelo solto”. É, aparentemente ter cabelo é algo muito perigoso nessa vida.
  2. C. curte uma micareta, carnaval e folia. Certa vez estava numa bagunça dessas da vida quando um cara chegou perto pra falar com a prima dela. Diante a negativa da moça, o agressor a segurou à força para beijá-la, sendo logo ajudado pelo amigo (que já tinha levado um fora de C.). Desesperada, ela partiu pra cima dos dois. Pediu, gritou e bateu muito neles até que, finalmente, desistiram. Novamente, ninguém fez nada. “Esse negócio de micareta é engraçado, as pessoas acham que podem perder a noção”.
  3. M. estava numa baladinha quando um cara chegou e pediu para conversar com ela. “Qual é o seu nome? Você é solteira? Quer ficar comigo?”, e M. disse que não. Daí decorreu-se muitos minutos de réplicas e tréplicas e “por que não? Mas você não é solteira?”. Mas M. não achava que o fato de ser solteira significava qualquer coisa ali, e não mudou de ideia. “Ele me xingou e saiu pra beber com os amiguinhos na mesa ao lado”.
  4. Uma outra M. também estava numa baladinha com as amigas quando um cara veio insistir em apresentar a namorada dele, que a havia achado muito bonita. Conversa vai, conversa vem, as duas acabaram se beijando. O agressor, então, sugeriu que rolasse algo a mais que o envolvesse, e M. recusou de primeira. Não satisfeito, ele a pegou pelo braço, a arrastou até a parede e a beijou à força. “É aquilo, você tá numa festa, bebendo, o cara pensa que vai ser fácil, então faz”.
  5. Certa noite, N. estava num bar com um casal conhecido e um amigo em comum. Quando decidiu ir embora, o amigo ofereceu carona para levá-la pra casa, mas N. pegaria um taxi porque morava muito ali perto. Quando já estava esperando pelo taxi, o cara apareceu e a segurou pelo braço, teimando que a levaria pra casa, mesmo que ela insistisse que não queria. Amedrontada e sem a ajuda de nenhuma das pessoas que viam a cena, N. entrou no carro e agiu naturalmente até a porta de casa. O agressor tentou beijá-la e não entendia porque ela não queria ficar com ele. “Era como se eu devesse algo a ele por ter sido ‘tão simpático e atencioso’ comigo”.

Somos todos culpados

O que quero apontar com os relatos anteriores é que, analisando os comportamentos de todos esses caras, podemos perceber um padrão que toca sempre em alguns desses pontos: abordagem deslocada e sem prévia “condição” por parte da mulher, insinuação de que ela está “louca” ou “nervosa” só por não se interessar, insistência mesmo diante de uma (ou várias) negativas, comportamento agressivo e/ou desdenhoso diante a certeza de que ela realmente não quer nada, exigência de uma “compensação” (telefone, beijo, sexo, etc) por ele ter sido “amigável” – dentre outras coisas que muitos psicólogos poderão dizer melhor que eu. E, surpresa!, nenhuma das meninas relatou ter gostado das abordagens. Então, por que os homens continuam achando que estão abafando quando chegam assim nas minas? Simples, porque vivemos numa sociedade que não reprime essa atitude, e pior, a incentiva. Estamos todos envolvidos no que se conhece como a “cultura do estupro”.

O termo, que assusta muita gente (e é pra assustar mesmo!), se refere a uma série de comportamentos tolerantes e incentivadores ao estupro que nossa sociedade reproduz. Quando um comediante faz uma piada [1], diminuindo a dor de quem sofreu a agressão, dizendo que se a mulher era feia então o estuprador merece um abraço em vez de cadeia, ele está incentivando o ato. Quando um programa de TV [2] cria um quadro onde uma mulher é apalpada no metrô lotado e a “amiga” diz pra ela aproveitar enquanto pode, é um incentivo. Quando uma campanha publicitária [3] diz que sexo sem consentimento é bom porque “queima mais calorias”, ela está incentivando pra cacete. Quem duvida da vítima [4] durante uma denúncia de estupro quando, na verdade, deveria estar prestando assistência a ela, também. Os pais incentivam quando perguntam à filha porque ela estava naquele lugar, naquela hora e com aquela roupa.

Da mesma forma, quando todos os babacas dos relatos acima fazem suas babaquices e ninguém os impede, eles se sentem incentivados a fazer de novo e, quem sabe, fazer até pior. Explico com um exemplo: de acordo com pesquisa divulgada recentemente [5], boa parte dos homens não entende o sexo sem consentimento como sendo estupro. No estudo foi questionado se, caso não houvesse consequências, fariam sexo sem consentimento com uma mulher. Resultado: quase um terço dos entrevistados disse que sim. Quando a expressão “sexo sem consentimento” foi alterada para “estupro”, o índice caiu para 13,6%. Ou seja, boa parte dos homens não considera que transar com alguém à força é a mesma coisa que estuprar, algo que não é preciso fazer muita força para entender. Que dirá dizer a diferença entre uma passadinha de mão no meio da balada e um assédio sexual digno de prisão? Pois é. Não importa se mais ou menos agressivos, qualquer cantada ou assédio faz parte de um ciclo que violenta, oprime e subjuga mulheres de diversas maneiras [6] há séculos.

Em tempos em que emissoras de TV lançam enquetes absurdas com perguntas do estilo: “Você acha que beijo forçado no Carnaval deveria ser proibido?”, ignorando o fato de que já existe uma lei pra isso [7], eu apenas peço que Buda me dê paciência. Pois enquanto houver pessoas que não conseguem enxergar o óbvio, enquanto meninas não puderem usar a roupa que quiserem sem serem julgadas, enquanto mulheres ainda tiverem que se preocupar em ter a chave do portão à mão muito antes de chegar em casa e enquanto eu tiver que inverter os gêneros de uma história para que ela não pareça banal e prenda sua atenção, será necessário informar, discutir e parar de ser negligente. E só pra lembrar: não é meu aniversário, não tô de parabéns e não quero dançar. E agora larga a minha mão.

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