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Primavera carioca

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Pra você que perdeu os acontecimentos políticos cariocas nos últimos tempos (convenhamos, tá difícil acompanhar tanta loucura no cenário político), vou recapitular: Eduardo Cunha, ainda ele, antes de sair do cargo de presidente da Câmara dos Deputados conseguiu aprovar uma lei que impedia que candidatos – e sua coligação – com menos de 9 representantes na Câmara Federal participassem dos debates políticos na TV. Os candidatos poderiam até ser convidados pelas emissoras para participar, mas dependiam que 2/3 de seus adversários aprovassem suas presenças.

Dentre os ditos partidos nanicos, o PSOL correu muito atrás para que Marcelo Freixo, 2º colocado nas pesquisas do Rio, participasse do debate. Durante a semana, tivemos dias em que o Freixo estava dentro do debate e dias em que ele não estava mais. Alguns candidatos, favorecidos pela lei, simplesmente mudaram de ideia e resolveram votar contra. Esse texto, escrito antes do debate e da votação final do STF, ilustra bem o acontecido e o quão surreal essa lei é. Uma lei que exclui candidatos do debate eleitoral chega a parecer uma piada. Mas, em se tratando de House of Cunha, sabemos que tudo é possível. No fim das contas, o STF não alterou a lei, mas votou a favor de as emissoras poderem convidar os candidatos que considerassem representativos – sem a possibilidade de veto dos adversários.

Isso esclarecido, Marcelo Freixo havia marcado um evento na Cinelândia para transmitir o debate e responder as perguntas ao vivo, já que havia sido barrado do mesmo, numa mega operação de live stream. O candidato resolveu manter o evento, já que não haveria tempo hábil para participar do debate após a decisão do STF, mas confesso que estava um pouco cética em relação à presença das pessoas no encontro. Cinelândia, 22h, quinta-feira, após o cara ser aprovado nos debates. Não parecia muito favorável.

Ao chegar, me deparei com o clássico arroz com feijão das manifestações cariocas. Um clima de carnaval, muita gente conhecida tomando uma cerveja e a mesma música tocando. Mesma. Música. Para ser sincera, era o jingle de campanha. Mas chegou um momento em que eu desejei nunca mais ouvir a voz do Wagner Moura tão perto do meu ouvido. Juro. Ninguém aguentava mais. De qualquer forma, cada vez que a música repetia, lá pra metade já tava todo mundo gritando “UH, é o Freixo!” pela milésima vez, copiando o passinho do senhor que dançava animadamente a mesma coreografia sem parar e jogando os braços pro alto. Era um clima contagiante. Dava uma certa esperançazinha. Burguesia folclórica com toda a sua força.

De fato me senti numa grande reunião de conhecidos. Uma mistura de BG às quintas, com São Salvador, Bar da Cachaça e Baixo Botafogo. Tinham muitos jovens, secundaristas, alguns idosos e também um grupo de travestis fazendo campanha com seus “corpos panfletos” para uma candidata à vereadora. Achei genial. Mas, pessoalmente falando, senti falta de mais diversidade. Vi poucos negros, mães, trabalhadores… Eu sei que vivemos na bolha da zona sul e ela é difícil de ser quebrada, mas é necessário. Sei que a Cinelândia foi um bom espaço, ao lado do metrô, do centro e da Lapa. Lugar pontual. Mas, ainda assim, falta alguma coisa. Não nego o meu lugar nessa juventude-carioca-burguesia-zona-sul, mas falta algo que tire esse selo de qualidade São Salva dos eventos.

Voltando ao foco: o evento em si cumpriu com tudo o que era esperado. Freixo foi ovacionado, assim como Chico Alencar e Luciana Boiteux, candidata a vice na chapa. Em suas falas todos foram muito enfáticos na importância daquela noite, na presença de todos e de como não estar presente naquele debate específico poderia virar uma coisa positiva. Se a mídia não nos dá espaço, nós criamos os nossos próprios caminhos, diriam eles. Afinal, como disse o Pedro Paulo, a “máquina do Freixo são as redes sociais”. Dentre as estratégias para divulgação do evento estavam o uso de uma hashtag, que foi constantemente lembrada durante a noite, e que fez com que o nome de Freixo figurasse entre os trending topics Brasil do Twitter. Com uma equipe tão jovem e ligada nas formas alternativas de comunicação, não tinha como ser diferente.

A galera ouviu atentamente a todas as respostas do candidato e a dinâmica de pergunta e resposta funcionou bem. Candidatos polêmicos, como Bolsonaro e Pedro Paulo, foram devidamente escrachados pelo público. Ninguém esperava menos. Freixo respondeu muito bem, apesar de já estar com o terreno ganho. A noite era sua. Rolaram algumas piadinhas, como já são conhecidas do candidato, mas as respostas diziam exatamente o que a galera queria ouvir. As redes e a rua, como canta o jingle, foram tomadas. Ele mesmo chegou a chamar de “primavera carioca”.

O encontro precisou ser encerrado mais cedo, segundo as regras do TSE de que nenhum evento oficial de campanha pode ultrapassar o horário de 00h, para surpresa dos presentes. De qualquer forma, ninguém protestou. O jogo ali já estava ganho. Mas, antes disso, como uma reviravolta aos 45” do segundo tempo, Flavio Bolsonaro passou mal e o debate foi rapidamente interrompido. A multidão foi a loucura. Ficou um misto de incredulidade com o que havíamos acabado de ver no telão e, pelo menos de parte dos presentes, um certo incômodo com a comoção e gritaria das pessoas diante da situação. Parecia final de campeonato, mas seu time não necessariamente estava ganhando.  Compreensível, em meio ao cenário político que vivemos nos últimos anos, mas também trouxe um certo desconforto. Marcelo Freixo foi rápido em, em seu discurso de despedida, frisar que “apesar das discordâncias politicas e ideológicas, que são inúmeras, não desejava mal ao candidato”. Fez o certo.

A partir dali o fim da noite já não era tão triste. Era um sentimento de vitória no ar, de que aquele afastamento do debate, como foi frisado durante todo o evento, acabou sendo uma vitória. Quem perdeu foram eles, diriam. E de fato foram. Acabamos por não saber que o debate havia sido retomado, mas àquela altura já não importava mais. Era o momento de encontrar conhecidos e tomar aquela cerveja. Estávamos de volta à São Salvador, da qual nunca parecíamos ter saído. Era mesmo um grande encontro da burguesia folclórica. Esperado.

O que mais me surpreendeu durante a noite foi a força de Marcelo Freixo. De fato aquela multidão estava totalmente do seu lado. Depois de tanta desilusão política, e com a cidade da forma que está, as respostas e projetos de Freixo pareciam um sopro de esperança para todos. O grande desafio me parece, agora, ser o de conseguir alcançar outros públicos. A militância e os apoiadores de longa data estavam em peso, mas é preciso mais. Outros bairros, outras pessoas, outras experiências. Chegar aonde a campanha de TV não chega – e nem chegaria, com o “tempo Bolt”, como disse o candidato, de 11s de propaganda eleitoral.

Mas nada disso desmereceu a experiência da Cinelândia. O evento foi muito mais bem sucedido do que esperado. Foram 5 mil pessoas presentes e mais de 300 mil assistindo à transmissão online (audiência maior que a do debate na TV). O evento foi todo financiado por doações, 26 mil reais arrecadados em 2 dias. Ninguém nega que Marcelo Freixo tem sim a força das redes sociais. E ninguém deveria subestimá-las. Como cantam tantos artistas no jingle eleitoral “Vai ser desse jeito (…) na rua, na rede, na raça”.

**Veja outra opinião sobre este assunto aqui.

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