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Precisamos falar sobre eles

Ser: possuir identidade, particularidade ou capacidade inerente; também indica pertencer ao conjunto dos entes concretos ou das instituições ideais e abstratas que fazem parte do universo; possuir ou preencher um lugar.

Por coincidência ou ironia do destino, no idioma árabe, uma das línguas faladas na Síria, não existe o verbo “ser”. Talvez eles já soubessem que o seu desafio seria esse: simplesmente poder ser e/ou pertencer.

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Perwar é sírio, da cidade de Qamishlo, está vivendo no Rio de Janeiro há sete meses e vende comida árabe na saída do metrô da Glória. O jeitão já descontraído e o riso frouxo confundem quem o vê de longe. Um sorriso que logo some ao lembrar da situação do seu país.

“Eu estudava veterinária, estudei por 3 anos, mas a cidade onde era minha universidade foi totalmente tomada pelo Estado Islâmico. Eu tive que voltar para minha cidade, Qamishlo, mas lá não há nada o que fazer. Sendo assim, eu decidi sair.”

Apesar do plano de Perwar nunca ter sido viver aqui, hoje ele se declara um apaixonado pelo Brasil e os brasileiros.

“O Brasil e os brasileiros são muito bons. Estou aguardando a minha esposa chegar e nós vamos ter o nosso filho aqui, um filho carioca. Eu não quero mais ir embora daqui”, diz Perwar, novamente com o sorriso no rosto e com a certeza que encontrou o seu lugar.

Diogo Felix, assessor de imprensa do Cáritas Rio de Janeiro, organização não governamental ligada a Arquidiocese, sinaliza que a crise humanitária de hoje é a pior desde a criação da Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951.

“Não se escolhe classe, cor, credo e nem região. Isso está acontecendo em vários lugares do mundo. Não tem lugar determinado para se tornar refugiado e normalmente isso é de uma hora para outra.”

Dados do ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) indicam que a cada minuto 24 pessoas saem de suas casas por motivo de perseguição ou guerra. Até o final de 2015, cerca de 65 milhões de pessoas tiveram que fugir, entre elas, 20 milhões são refugiadas, ou seja, atravessaram fronteiras, e 45 milhões são deslocados internos, continuando dentro do próprio país.

Por muito tempo “sair de casa” foi o pensamento mais recorrente na vida de Mariama Bah, natural de Gâmbia, atriz do coletivo Siyanda e que vive no Brasil há dois anos. A gambiense é um exemplo de vida, força, resistência e empoderamento feminino.

Gâmbia é um pequeno país da África Ocidental, declaradamente islâmico, e governado pelo presidente Yahya Jammeh desde 1994. A nação vem sofrendo uma série de sanções por infringir direitos humanos, como por exemplo, o casamento infantil e a circuncisão feminina. O país é recordista em mutilação dos órgãos genitais femininos. Apesar de leis recentes tentarem coibir essas práticas, elas ainda são muito presentes culturalmente.

Aos nove anos de idade, Mariama foi retirada da escola e prometida em casamento para um homem da sua família, aos 13 anos, teve sua primeira relação sexual e, aos 14 anos, deu luz à sua primeira e única filha.

“Foi um matrimônio muito difícil, pois eu nunca amei. Amei como familiar e respeito como pai da minha filha. Então eu tive que lutar para sair disso, lutar contra minha cultura e toda minha família. Eu tive que sair para correr atrás dos meus sonhos.”

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A africana afirma que a primeira vez que sofreu preconceito na vida foi na América Latina.

“Eu penso no respeito à mulher negra. ‘Ela é preta, mas é linda.’ Não aceito! A gente não escolhe a nossa cor, ninguém vai escolher ser o centro de discriminação e sofrimento. Eu sou uma negra bem orgulhosa de mim, mas penso que o respeito a mulher negra está fazendo falta.”

Mariama não esconde as lágrimas de expectativa pelo encontro com a filha Maimuna, que está a caminho do Brasil. As duas não se veem há dez anos.

“Nossa! Quando eu penso, meu coração fica apertado. É muita expectativa. A minha filha diz que quer ser médica, quando a escuto falando isso percebo que tudo que eu fiz valeu a pena, porque uma geração está mudando. Aqui minha filha vai estudar e ser o que quiser. A gente luta para mudar uma história que acha que não está bem.”

O Brasil é signatário da Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados, de 1951, e tem uma legislação bem moderna, pois concede o direito ao trabalho, educação, saúde e mobilidade. Essa oportunidade de recomeço é o diferencial do país para Audrey Mandala, congolês de 28 anos que vive aqui há um ano e seis meses e trabalha como professor de francês no Abraço Cultural. Mas ele ressalta que falta acompanhamento do governo brasileiro.

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“Tem gente que chega aqui com diploma, mas como não tem um acompanhamento não consegue fazer nada. São sempre subempregos e não podemos negar, não podemos reclamar senão estamos fora. Ainda há uma herança escravocrata no Brasil, principalmente por sermos africanos. Somos um povo pisado.”

Apesar de todos os desafios vividos por ser africano e refugiado, Audrey encontrou no Brasil muitos motivos para sorrir. Ao chegar ao país ele reencontrou uma conhecida da faculdade. Não eram amigos, mas ele já a observava no Congo, e aqui se aproximaram e casaram. Daqui a seis meses um novo encontro, mais marcante, ainda está para acontecer: o nascimento do seu primeiro filho.

O que une Perwar, Mariama e Audrey é o anseio por liberdade e respeito. Somos todos feitos de fluxos migratórios, temos dentro de nós várias nações que constroem a nossa identidade. Somos plural e singular. Entre Brasil, Síria, Gâmbia e República Democrática do Congo; português, árabe, inglês e francês, é preciso ser, deixar ser e lutar para sermos.

**Veja outra opinião sobre este assunto aqui.

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