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Pecado é ficar calado

Galba 2

Sou Emerson, pernambucano, 23 anos, ator, cineasta em processo.

Também sou Galba, pernambucana, idade não revelada, cantora, tropicalista, Diva e 100% sincera.

Dividimos a mesma matéria-corpo. Para alguns, a Galba é Drag Queen, para outros, humorista. É transformista, personagem, experiência. É liberdade.

Há três anos, eu me preparava para dirigir um curta-metragem e uma das personagens se chamava Galba. Juntei a galera em casa pra pensarmos os planos e as coisas do filme. Era uma sexta à noite (ou talvez um sábado). Acabei fazendo a personagem e achei aquilo divertido.

Toda vez que rolava uma festinha em casa, os amigos pediam e a Galba chegava. Foi virando rotina. Comprei algumas maquiagens, ganhei roupas das amigas. Tutoriais de maquiagem, concursos de Drags, Programas de TV… Em um salto (no tempo e nos pés), eu já era a Galba.

Sempre fui apaixonado pela nossa brasilidade. Ritmos, Cores, Tradições, Ícones. Alguns amigos dizem que sou ufanista. E acho que sou mesmo.

Senti falta de encontrar essa identidade no “mundo Drag”. A estética pop e americanizada é muito relacionada à figura das Queens. E eu queria explorar um outro lado. Galba is tupi.

Faltava um sobrenome. Sou cria de Gal Costa. A maior voz que já tivemos. Tenho na memória da infância minha mãe ouvindo “Chuva de Prata” e o hino de protesto dos anos 90, pedindo para o Brasil mostrar sua cara. Gal Costa e sua cabeleira está no imaginário nacional.

Lá pelos 18 anos, sei lá como, vi um vídeo de Tom Zé e Gal. Um programa de TV antigo. Antes de Gal cantar, ele fala:

“Sabe uma faca me rasgando,
um mundo se acabando, num sei,
Gal Costa cantora, Gal Costa a mulher,
a mulher terrível, a mulher linda,
a noiva, a morta, a viúva , a maravilha:
é muito difícil falar essas coisas,
eu não sei, a Gal Costa sempre me trata
com choques elétricos, e eu chego pra ver
ela e me arrebento por ela e me desarrumo
por ela, não sei, é sempre surpreendente,
eu nunca sei o que vai acontecer, e cada vez
é como a vida tivesse se partindo,
se começando, se acabando…”

E foi isso. A voz dela me arrebatou naquela madrugada de insônia (e me arrebata toda vez que ouço). Dali em diante, fiquei viciado. Ouvi toda a discografia, li tudo que achava sobre ela, filmes, shows… Aprendi com a Gal a me redescobrir. A não ter tempo de temer a morte.

Galba nasceu nesse momento também. E da coragem de ser o que se quer. Gogóia. A fruta. A lenda do sertão, que nasce cheia de cor em meio de tudo que há. Peguei da canção e do folclore e levei pra mim:

Eu sou uma fruta gogóia

Eu sou uma moça
Eu sou calunga de louça
Eu sou uma joia

Galba estava na internet e nas ruas. Ela foi ganhando espaço. Trabalho com cinema e, junto com os amigos, criamos o canal da Galba no Youtube. A gente queria fazer um humor cheio das nossas ideias e questionamentos. E fomos fazendo do nosso jeito.

Não imaginava como a minha voz, na figura de uma drag, poderia se reverberar. Quando a gente joga um discurso na internet, tudo pode acontecer.

Vi isso quando fiz um vídeo de dia dos pais. Sempre tive uma relação conturbada com o meu e, quando ele “””descobriu”””” que eu era gay, me tirou da vida dele. Resolvi contar essa história pra mostrar que a gente não pode deixar secar por essas coisas, que o mundo é nosso e seremos sim o que quisermos ser.

Nesse vídeo, vi mais que nunca o poder da voz. Muitos adolescentes me mandaram mensagens contando suas histórias e querendo uma conversa de força. Conversamos bastante. A fala é transformadora. E ela vai longe.

Claro que alguns haters me atacaram, mas isso a gente abafa. Não podemos alimentar o ódio e nem deixar ele ser maior do que nós.

Senti isso também ano passado. Fui convidado a trabalhar na escola em que fiz o ensino médio. Eu iria guiar as atividades de um cineclube e a ideia era ligar o prazer de ver um filme às discussões relevantes para aqueles adolescentes. Foi maravilhoso.

(outro parêntese aqui: sempre quis ser professor, mas acabei indo por outro rumo de formação)

Durante 1 ano, tinha um grupo de “”’estudantes””” que nos encontrávamos semanalmente pra discutirmos um tema. Não tinha um conteúdo específico para seguir. Falamos de tudo um pouco, através de questões lançadas pelo cinema.

Ali revi como é importante falar. Falar, falar, falar.

Nossa conversa fluía, vários encontros de ideias. Repensei várias coisas e senti que eles também repensaram.

Também como cineasta em formação, e com alguns curtas que fiz o roteiro e dirigi, sinto o poder que nos dado: o de jogar ideias. E é uma importante e cautelosa missão. Um filme se faz e vai pro mundo para refletir alguma coisa. E, que fique claro, um filme é de quem vê. Ao ser visto é que ele existe. E o sentido dele cada um dá.

Gosto mesmo disso, dessa coisa de falar e ouvir. E foi o que escolhi fazer da vida. Tô pra jogar minha a voz no mundo. De ir por aí. Mostrando como sou e vou sendo o que posso. A nossa voz é o poder e a gente tem é que gritar isso por aí. A revolução é nossa, seja como for. Afinal:

“Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou professor”

Pecado é ficar calado.

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