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Na crista do galo!



Se você experimentou no último ano kombuchás, tapioca de goma colorida, manteigas saborizadas, molhos exóticos e comprou orgânicos direto do produtor rural, sabe que tem um movimento de comida acontecendo pela cidade. De mansinho, vem aparecendo formas alternativas de compra que substituem os supermercados e grandes redes. Empreender na gastronomia está hoje na crista da onda, ou melhor, na crista do galo, e de preferência caipira.

Mas não foi sempre assim e nem precisamos ir muito longe. Há menos de 2 anos, nosso consumo era restrito à grandes indústrias, o máximo de acesso alternativo que tínhamos era um ovo orgânico ou uma geleia artesanal que brigava por um espacinho nas prateleiras. O preço? O dobro do industrializado. O processo artesanal é mais custoso (em todos os sentidos). O pequeno produtor não consegue diluir suas despesas em uma grande escala pela limitação da capacidade produtiva e, muitas vezes, abre mão de maquinários para preservar o sabor do seu produto. Isso tudo gera um processo mais demorado e claro, menos “competitivo.”

Já os acordos nas grandes redes são iguais para todas as empresas, seja você um produtor orgânico de milho ou uma multinacional de grãos. No Mundial, por exemplo, um encarte quinzenal custa R$ 4.000, uma ponta de gôndola entre R$ 5.000 e R$ 7.500 por loja – isso sem contar com a demonstradora que distribui amostras de produto, coloque mais R$ 3.000 na conta. Resumindo: uma baba.

A alternativa? Uma delas já vem crescendo pela cidade: as feiras e eventos gastronômicos. Nos últimos meses tem tido, simultaneamente, cerca de 5 feiras diferentes por final de semana; barracas de produtores locais, feiras de food trucks, feiras de food bikes e qualquer coisa do gênero. A moda pegou. Com pouca ou nenhuma legislação, as pequenas startups de comida conseguem gerar experimentação do seu produto, ter contato com o consumidor final e o melhor de tudo: por seu produto à prova, testar a ideia. Tudo isso com um investimento mínimo. O pontapé inicial não poderia ser mais interessante.

A questão é que esse modelo de feiras não é, por si só, sustentável. A maioria dos eventos cobram entre 20% a 30% do faturamento de cada empresa ou um valor mínimo que chega a R$ 700,00 em um só dia. Tem ainda o risco do evento ficar vazio e o descarte da comida ser a única opção devido a falta de outros pontos de venda pra escoamento do produto que sobra. Cada vez mais existem empreendedores fazendo uma “curadoria” própria e criando eventos diversos na cidade que, no final das contas, é mais do mesmo.

E se tivéssemos outros modelos complementares às feiras? Ou que substituíssem as idas ao supermercado? E se essas mentes criativas fugissem do modelo já testado de eventos pop-ups e construíssem formas diversas de conectar produtor-produto-consumidor? Aqui no Rio de Janeiro, a Junta Local já está fazendo um trabalho interessante nesse sentido. Além das feiras, que são mais conhecidas pelo grande público, a produção organiza Sacolas Virtuais quinzenalmente com produtos da maioria dos “ajuntados” que expõe nas feiras. A coleta é feita, por enquanto, em um só ponto, na Comuna em Botafogo, mas o time já se inspira em modelos gringos para pulverizar o acesso e atingir outros bairros.

É o caso da americana FARMIGO, startup que conecta fazendeiros e produtores locais com os consumidores. A fórmula é simples: você entra no site, faz o pedido e escolhe o ponto de coleta mais próximo de você. Os pontos são, geralmente, na casa de pessoas que se voluntariam para organizar as entregas. Isso os dá 30% de desconto em seu pedido ou uma comissão de 10% acima de 500 dólares nas entregas daquela semana. Hoje a FARMIGO atende 15.000 famílias em 350 pontos de coleta.

 

Outra alternativa é o Good Eggs, que reúne uma gama de 300 produtores e entrega os pedidos em casa com um delivery grátis. Tem ainda a o Food Assembly, com um modelo que mistura feira com coleta de pedidos, toda semana um local é montado para a retirada dos pedidos e oferece chance do consumidor conhecer os produtores que estão por trás da sua compra. O que isso muda para o produtor? O lucro em cima do produto vendido, que gira em torno de 80%. Bem melhor que os 15% a 25% que são oferecidos pelas redes de supermercado.

O site Pick Your Own também fornece uma experiência incrível, mapeia fazendas ao redor dos Estados Unidos e dá a oportunidade do consumidor colher sua própria comida. Eles disponibilizam as frutas e vegetais da estação, traçam horários de coleta e ainda oferecem pagamento em cartão de crédito. Da fazenda para a mesa, pelas mãos do consumidor.

Nos Estados Unidos, além dessas diversas formas alternativas de atravessar o produto, o consumidor consegue encontrar uma grande variedade de produtos de pequenas marcas nas prateleiras de supermercados como o Whole Foods, Safeway, Trader Joe’s. Desde 2009, pequenas empresas roubaram 2% de market share de grandes indústrias, consolidando uma movimentação de $18 bilhões (ler aqui). Com esse crescimento, investidores do Vale do Silício já buscam startups do setor alimentício para investirem, como o caso do iogurte Chobani (empresa que deu origem à mania de iogurte grego) que, em menos de 5 anos, teve um retorno em vendas de 1 bilhão de dólares.

Empresas locais e globais podem coexistir e habitar o mesmo espaço nas gôndolas de supermercados e nos cardápios de restaurantes. Chefs já começaram a valorizar a produção local para a escolha de seus ingredientes e preconizam os produtos sazonais na concepção de seus cardápios. O pioneiro nessa jornada é o chef nova iorquino, Dan Barber, do Blue Hill, que acaba de ter seu livro The Third Plate (Terceiro Prato), traduzido em português pela Editora Rocco. Aqui no Rio de Janeiro, estabelecimentos como o Market Ipanema, Puro Restaurante e Naturalie Bistrô seguem na mesma jornada.

A verdade é que ainda estamos embrionários nessa revolução da comida e 3 pontos chaves precisam se consolidar no mercado brasileiro para o salto acontecer:

1. Deve haver uma profissionalização das marcas que surgiram no contexto acelerado de feiras. Encontrando um local para a produção apropriada às regras da ANVISA; confecção de embalagens com códigos de barras e informações nutricionais, logística de distribuição e equipe de vendas para abrir mercado.

2. Uma participação ativa dos consumidores ao pedirem os produtos de pequenas empresas em cafés, padarias e supermercados que costumam frequentar. Além disso, é importante nos perguntarmos: o que é esse produto que estou comendo? Quem produziu? Quais os ingredientes usados? Qual o impacto disso no meu corpo e no ambiente?

3. A criação de pontos alternativos de revenda (a lá Comida da Gente) e abertura dos pontos convencionais existentes como mini mercados e padarias. Assim, o consumidor consegue se fidelizar à pequenas marcas, fazer a recompra e fortalecer o pequeno empresário gastronômico.

 

Não importa se você está do lado de quem produz, do lado de quem vende ou do lado de quem come, todos nós temos um papel importante na mudança desse paradigma.

E aí, você sabe de onde vem o produto que comeu hoje?

 

*Nota a quem interessar possa: as opiniões explicitadas nesta matéria são exclusivamente do autor. A NOO é um espaço aberto ao debate, queremos estimular a troca de ideias. Se você tem uma visão diferente sobre esta ou outras questões, sinta-se mais do que livre para enviar sua opinião pra cá: contato@noo.com.br – Se ela for construtiva e bem embasada, ficaremos felizes em publicá-la ; ) 

 

A Rafaela é fundadora da NUU, residente do Templo.


++ PALADAR

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