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O corpo morreu e você nem ficou sabendo

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Thaissa Becho // AERÓBICA por VidaFodona

O corpo não existe. Ele é invenção, imaginação, cultura, conexão, proteção, mas acima de tudo ele é indivíduo. O corpo é movimento. É ser e deixar ser.

Não é possível falar sobre corpo sem refletir sobre os seres que os ocupam. Para Treyce, Bel, Fernanda, Joana, Dani e Taís o corpo tem sentidos complementamente diferentes. Ele pode ser negro, gordo, branco, com necessidades especiais, com “15 kg a mais” ou um novo corpo. Mas, o principal é que corpo é pertencimento, é expressão e relação, é objeto de resistência, e deve ser respeitado como tal.

Padrão é algo inerente para a sociedade, mas até que ponto segui-los a qualquer preço vale a pena? Que pressão é essa que vivemos e que nos faz anular o que há de melhor em nós em busca de algo que não nos pertence. Que forma é essa de lidar com o padrão, onde nos mutilamos, nos fazendo metade, para nos fazermos inteiras?

Foi essa pressão que fez Bel Junqueira, fotógrafa, aos 26 anos grávida do primeiro filho se alimentar apenas de salada e frango, pois sempre ouviu que grávidas engordam demais e que ela nunca mais voltaria ao peso “ideal”. Bel chorou, sofreu e engordou. Ouvia que a amamentação iria fazê-la “secar”, afinal, ser magra era o que importava. Bel amamentou seu filho até 2 anos e meio, não porque queria “secar”, mas porque percebeu que não podia sacrificar a amamentação do Antônio em prol de um corpo e dieta. Afinal, o que é corpo perto de se sentir feliz e realizada? Hoje Bel se sente livre com o seu corpo.

O corpo é raça e ancestralidade. O corpo negro é alvo de racismo e de genocídio. Nega-se ser negro, somos morenos, pardos, mas ser preto é difícil. Nisso vamos morrendo. Segundo a Anistita Internacional um jovem negro tem as chances aumentadas de morrer quando comparado a um jovem branco. O corpo marginalizado e esquecido vem sofrendo um processo doloroso de negação e mutilação para a jornalista Taís Amorim. Ser mulher e negra é mais difícil ainda. Dados ilustram que 66% das mulheres que morrem durante o parto ou sofrem violência são negras.

“Ter um útero nesse modelo de sociedade é uma dádiva, porém percebo que ser força geradora e criativa, é também motivo de moralização, silenciamento e cerceamento. Isso conduz um fortalecimento no encontro e criação de mulheres com mulheres, a fim de construir um diálogo amplo em comunidade.”

Treyce Goulart, pesquisadora do Nós do Sul:  Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Identidades, Currículos e Culturas, diz que a relação com seu corpo sempre foi problemática. A menina negra, gorda, pobre com a risada “alta demais”, o cabelo “ruim”, o nariz “largo” e sorriso “grande demais” sonhava em ser diferente.

“Recordo de uma vez em que mantive um relacionamento à distância com um homem, naquela época eu era hétero. Quando ele me perguntou como eu era eu descrevi: branca, magra e com cabelos longos e lisos.”

A hipersexualização do corpo negro é uma outra problemática que temos. O corpo da mulher muitas vezes é visto como objeto de prazer e de fetiche. Treyce diz que desde muito nova teve seu corpo foi sexualizado, tendo sofrido assédio.

“Meu corpo por grande parte da minha vida foi do outro. Essa sexualização passou a ser significada por mim como valoração de minha existência. Talvez por essas razões a minha sexualidade, a minha lesbianidade só tenha sido vivida de fato e abertamente, até para mim, apenas nos últimos dois anos. Porém todos os dias me torno uma mulher negra, intelectual, lésbica, gorda e pobre. Todos os dias (re)significo esses marcadores do meu corpo.”

O corpo pode refletir a nossa alma, nossa ansiedade e nossos medos. O corpo muitas vezes pode ser o reflexo do que há por dentro. Para Fernanda Alves, Mestranda de Sistemas da Informação, seu corpo por um tempo refletiu sua insegurança, mas hoje ele representa sua força. Seu corpo branco, gordo, de quem já pariu, retirante e “sapatão”, como ela mesma se define, hoje é a sua arma de luta e de afeto, é sua resistência particular.

“Engordei com a chegada da minha filha, a balança subiu, pois direcionei para comida meus anseios. Depois de um tempo, ainda deprimida, e sob intensas mudanças perdi muito peso. Meu corpo se modificou de novo. Mas, redescobri a mim mesma, encontrando na comida uma forma de expressar satisfação e conforto. A balança subiu e aí eu senti o que era gordofobia e dessa vez foi difícil me curar. Usei meu corpo, o autocuidado, pensando no que poderia fazer para me sentir bem depois de um dia fadigante. Presenteie-me com novidades, como começar uma natação ou começar a caminhar. Não perdi peso, mas recuperei a satisfação”

Satisfação. Todos nós buscamos em nossa vida se sentir satisfeitos com o que somos e com a nossa imagem. O corpo é a nossa representação para a sociedade, ele nos distingue e nos representa. Mas como seguir quando nosso corpo não está alinhado com o a representação do indivíduo? Falta de representação foi a angústia vivida por Danieli Balbi, professora e doutoranda.

“Passei a minha infância inteira negando meu corpo, minhas formas, meu lugar. Não porque eu o odiava essencialmente, mas me recusava a ser aquilo que ele me definia. Passei os primeiro anos me recusando firmemente a ocupar o espaço que ele reclamava socialmente. Surge disforia de gênero: desejar desesperadamente a liberdade de ter outro comportamento e me embater com os limites impostos à corporeidade.”

O corpo por muito tempo foi limite para Dani, limite para ela ser o que ela via que era. Dani se sentiu uma aberração. A mudança só veio através do movimento. Hoje Dani é operada, mulher e completa. Seu corpo e seu ser são a mesma coisa. Se o corpo diz quem somos, podemos dizer que o corpo da Dani grita liberdade de ser.

Liberdade e limite são duas palavras contraditórias, mas que são uma constância na vida da cadeirante Joana Câmara.

“E costumo dizer que o fato de ser cadeirante assusta e gera curiosidade nas pessoas, então tudo é um pouco mais complexo, inclusive minha relação com meu corpo. Mas, acho que isso é um trabalho de aceitação diário”.

Corporeidade, é a maneira pela qual o cérebro reconhece e utiliza o corpo como instrumento relacional com o mundo, é um substantivo feminino. Corpo é ficção cultural, é substantivo masculino. Da junção dos dois forma-se o indivíduo. Corpo é relação de desconstrução, corporeidade é construção. É necessário construir relações para desconstruir esse corpo que nos tolhe. O corpo não existe. O que existe está em nós, além do corpo.

Agradeço à todas essas mulheres que ao compartilharem suas histórias construíram um novo corpo em mim. Resistimos.

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