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Notícias da Terra da Rainha

 

aviao---céu

* Texto de Carolina Taboada publicado no dia 04 de novembro de 2015

 

“Filha, por que não leva esse casaco vermelho aqui?”

“Mãe, eu já expliquei… Eu só tenho casaco preto porque é a única cor que eu sei combinar!”

Quando diálogos como esse começaram a acontecer, a uma semana do embarque, a tal pedra de gelo – que eu achava que deveria estar no meu estômago há meses – finalmente apareceu em toda a sua exuberância. Nos meses anteriores tudo o que eu sentia era empolgação: “vai pra Londres? Esse tempo todo? E morar junto? Nossa, você deve estar muito nervosa!”. Eu abaixava o olhar e respondia, com um sorriso tímido: “é, um pouco…”. Tudo mentira.

Estava me sentindo desbravadora. Destemida. Dona do mundo. Cruzar o oceano, e daí? Eu hein, gente, tanta gente faz isso. O mundo tá aí cheio de whatsapp-ligação-de-whatsapp-skype-facetime… E sair de casa? Todo o mundo faz isso também. E morar junto? Aff, seis anos de namoro, o que tinha pra dar errado já deu. Estava me sentindo madura. Bem resolvida. Independente.

No período entre a decisão pela mudança para fazer um mestrado e o casaco vermelho, fiquei orgulhosa por achar que estava construindo a minha despedida estava acontecendo de maneira serena: pedi demissão para poder passar mais tempo com a minha família e organizar a viagem com calma; instalei o Skype no computador do vovô, e ensinei ele a me ligar; minha avó foi convencida pela atendente da Vivo a comprar um smartfone quando disse que queria um celular de flip e, com essa oportunidade, ganhou o Whatsapp e um crash course sobre os seus usos; acreditei no esforço descomunal que meus pais faziam para me convencer que não era nada demais, tudo normal.

Tudo isso até aquela última semana. Entrei um dia no meu quarto, e as malas estavam vazias encostadas em um canto. Olhei para elas, e tinha certeza que elas me olhavam de volta de maneira acusadora: “tava se achando poderosa, né? Cheguei pra te colocar no seu lugar”. Vivi uma sensação da qual achei que tivesse me despedido para sempre anos antes: a aproximação da prova de física. A prova de física para mim era assim: eu sabia que não sabia a matéria. Sabia que não adiantava estudar sozinha, ia precisar de ajuda, mas adiava tudo isso só para não ter que encarar a realidade: eu não tinha a menor ideia de como terminar aquela prova com um resultado minimamente satisfatório.

Não importava o quanto tentasse ignorar esse sentimento; aquela manhã ia chegar. A prova ia estar bem ali na minha frente, transformada – em um passe de mágica – de sentimento a espaços vazios para o meu nome e respostas que eu nunca conhecia. E na hora que eu olhava aquele espaço de papel, sabia que ele me reconhecia: ninguém nunca soube melhor quem eu era, ninguém nunca me atirou verdades tão íntimas e cruas do que aquele pedaço de papel me encarando, desafiador, arrogante. A verdade sobre mim chegava em uma fração de segundo: eu lia o papel, e já tinha uma ideia bem razoável do que ia receber como resposta a ele. Sempre tive a sensação que era a prova de física que me lia, e não o inverso.

A mala me deu esse mesmo olhar, para o qual eu nunca estava preparada. Com um risinho debochado, a mala me dizia: “tsc tsc tsc. E pensar que você convenceu todo o mundo que está pronta para mim…”. Mas ao contrário dos duelos com as provas de física – que dias que estavam alinhados da maneira correta me favoreciam – minha guerra silenciosa já estava ganha há muito tempo: a mala ia ter o que ela queria, e eu ia ter que encontrar uma maneira de encaixar minha vida em 48 quilos.

A mala sabia, muito antes de mim, que a primeira coisa que eu pensaria quando me visse sozinha na minha casa em Londres seria: “mas que porra de ideia ruim morar a dez horas de distância DE AVIÃO da minha mãe.” E a segunda: “e com o Daniel, que come em cima da cama, acha que louça tem que sair inteira do armário antes de ser lavada e acompanha a carreira solo daquele cara esquisito do Los Hermanos!”. Olhei para o meu namorado-convertido-em-marido com olhar de pavor e pude sentir o coração taquicárdico quase ao ponto de achar que ele me ouviria. Ele olhou para mim, entediado, e perguntou: “quer uma maçã também? Tá docinha!”. Pensei que um comentário tão banal deveria me devolver a tranquilidade das semanas anteriores, mas minha crise de pânico continuou. À noite, olhando para o teto e tentando dormir, veio de repente o pensamento: “eu trouxe o casaco vermelho. O que eu vou fazer com ele? Eu não sei combinar o casaco vermelho, minha mãe e minha irmã que sabem. Como foi que eu achei que tinha capacidade de trocar de continente se nem combinar um casaco eu sei?”

Mas antes de pensar em migalhas de pão na cama, o cara esquisito do Los Hermanos e no casaco vermelho, tive que conhecer meu locatário – na terra da rainha convenientemente conhecido como landlord. E antes de conhecer meu locatário, tive que conhecer a imigrante xenófoba, uma categoria familiar aos homoafetivos homofóbicos, aos negros racistas e às mulheres machistas.

A imigrante xenófoba:

Doze horas depois de um embarque pálido e dando cada passo como se caminhasse para o abate, chegamos com a vida em seis malas em Vauxhall. À nossa espera, estava uma brasileira radicada na Europa. Enquanto resolvíamos algumas burocracias, ela explicava: “Eu moro na Europa há 20 anos. Já morei em X, Y e Z. Londres é ótimo, mas já foi melhor. Está tomada por imigrantes. E muito imigrante pobre mesmo.”. Eu e Daniel nos olhamos, pensamos nas nossas poupanças se esvaindo em libras esterlinas e na nossa própria condição – de nós três – de imigrantes, e voltamos novamente o olhar para os papéis a nossa frente. “Vocês são casados? Vocês deviam aproveitar e ter um filho aqui. O governo ajuda muito. E se você tiver um filho aqui, ganha logo o passaporte também!”. Eu ri, só para balançar a cabeça timidamente ao perceber que a contradição não era uma piada. Cansados e com termos técnicos rodando na cabeça, rapidamente a sua voz virou um zumbido constante, daqueles que você só percebe que estava incomodando quando consegue desligar – o que aconteceu quando nos despedimos.

O landlord:

Nosso primeiro encontro com o landlord foi amigável, ainda que surpreendente: assim que ele chegou percebi que esperava um senhor de 1,65, gordinho, com bochechas rosadas e gravata borboleta. Nota mental: expressões que remetem ao século XVII nem sempre vem acompanhadas de costumes da época (atenção: eu disse nem sempre). Tivemos algumas dificuldades que o deixaram um pouco confuso. Precisei perguntar como ligar e ajustar o sistema de aquecimento, e ele mal sabia que palavras usar para explicar uma coisa que, aparentemente, era óbvia. Fingi que entendi, depois a gente vê. Depois perguntei se podia beber a água da pia mesmo, e ele respondeu tentando entender se era piada. Por fim, perguntei o que fazer para as plantas não morrerem no inverno. Tenho a impressão que ele já estava um pouco assustado, mas foi lord o suficiente para responder: “não tem muito o que você possa fazer, as plantas secam no inverno”. Cara, as plantas secam no inverno!

Quando a porta se fechou atrás dele e toda a burocracia estava resolvida, pude sentir o olhar vitorioso da mala nas minhas costas. Com ar de sabedoria, e acho que um pouco triunfante, ela dizia: “eu te avisei”. Sem coragem de encará-la, aceitei a maçã e fiquei tentando imaginar o que eu e Londres tínhamos guardado uma para a outra.

(Continua…)

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