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A arte que dá voz à luta das mulheres

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Falar de voz é também falar de nós mesmos. De nosso lugar no mundo, de nossos espaços. É entender de que forma a gente pode (às vezes, deve) ou não se colocar e o que essa nossa fala vai trazer pro todo. Eu tenho uma tendência a achar que tudo que eu faço tem algum impacto maior, seja na minha vida, seja pro resto do planeta, então sempre tive aquele sonho de poder trabalhar com algo que de fato fizesse a diferença. Ainda tenho. Mas sempre tive a certeza de que essa mudança, esse trabalho, viria através do entretenimento. Sempre vi a arte como uma forma de mudar as coisas, mexer nas estruturas, dar aquele empurrãozinho necessário para que alguém possa ver o mundo com outro olhar.

De uns tempos pra cá venho entendendo melhor qual é de fato o meu lugar no mundo. Venho aceitando e compreendendo que as minhas vivências e relações, olha só, não são tão lugar-comum assim pras pessoas com as quais eu convivo. Digo isso por ser uma menina negra, de classe média, vivendo num ambiente majoritariamente e especialmente branco – a tal Zona Sul do Rio de Janeiro. Parece meio louco entender isso depois de uns 20 e tantos anos, aceitar que sim, você é negra e a maior parte das pessoas a sua volta não é e não sabe como é ser. Mas é uma compreensão que vem aos poucos, leva tempo, e vai te amadurecendo pra entender e aceitar muitas das situações que você já viveu e te mostrar a melhor forma de lidar com muitas das que você ainda vai viver.

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Em meio a esse processo intenso me vi envolvida na produção de um grupo de mulheres (maravilhosas) que também estavam vivendo, cada uma do seu jeito, essa busca por uma voz própria dentro da arte. Sete atrizes que, cansadas do ambiente machista em que vivemos – ainda tão presente no meio artístico – começaram a escrever letras de músicas sem a menor pretensão de algo maior e cantá-las de brincadeira para os amigos. Músicas essas que tratavam de suas vivências diárias, histórias engraçadas, acontecimentos, todas facilmente relacionáveis. Situações que todas as mulheres poderiam reconhecer. De uma simples brincadeira na festa de amigos o projeto musical foi crescendo, tomando forma, profundidade, ganhando novas letras. Algo forte. Quando vi, estávamos tocando no palco do abandonado Canecão, saindo nas capas dos jornais por conta da participação no ato Por Todas Elas e pegando um avião pra Fortaleza pra cantar na Bienal da UNE. Um show pra 5 mil desconhecidos, logo antes do da Gaby Amarantos e seu projeto feminista. Com a plateia em êxtase. Nós, mulheres. Falando sobre mulheres. E, especialmente, para outras mulheres. Uma massa de gente, que nunca tinha nos visto, pulando e cantando “Avisa lá embaixo que pecado é homofobia. Porque a moda é Adão com Adão, Eva com Eva”. Foi uma das experiências mais surreais que já vivi.

Por conta desses acontecimentos todos que nos envolveram durante 2016, as meninas entenderam que precisavam voltar pras suas raízes: o palco. Pra falar de tudo aquilo que tratavam no show, mas de outra maneira. A tal busca pela voz. E a partir dessa profusão de acontecimentos do último ano foi possível montar uma peça-show catártica expondo muito do que somos – todas nós, equipe e elenco. Nós falando por nós. Como diz uma das músicas, “O jogo virou, irmão, e tu não percebeu. Levanta do sofá que quem vai deitar sou eu”. Foram alguns meses de ensaio pra tentar transpor pro papel e pra cena o turbilhão que é ser mulher, ser atriz, ser namorada, ser diretora, ser cantora. Enfim, ser tudo o que somos. Escancarar os tabus, as vontades, os medos, as brigas. Tá tudo lá. Tudo que faz o grupo ser o que é. E é lindo. É forte pra cacete. É inquietante. É impossível sair de lá a mesma pessoa.

E, dentro desse processo, foi que eu pude entender o quanto as minhas vivências eram diferenciadas das que as minhas amigas haviam vivido e, principalmente, o quanto elas não tinham ideia dessa diferença. Percebi que algumas simples palavras que tanto me machucavam passavam batidas por elas – não por falta de empatia, mas por pura falta de conhecimento. E aí fui percebendo o quanto eu podia trocar e somar dentro daquele grupo de minas que já falavam muito por mim, mas que ainda tinham coisas que elas nunca conseguiriam falar. A tal da voz de novo. Fui entendendo que a voz delas amplificava muitas das minhas demandas e incômodos, mas que ainda tinham outras que só eu poderia gritar ali dentro.

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Não foi fácil. É uma luta diária. É difícil e até cansativo, às vezes, ter que explicar o motivo do meu incômodo (especialmente pros amigos homens). Mas eu ainda tento porque sei que tem muita gente com a cabeça aberta pra ouvir e que quer ecoar a minha voz. É aquele velho papo do privilégio e do lugar de fala. Saber parar e ouvir, respeitar o outro e entender quando o seu privilégio pode ecoar o grito de alguém que não tem tanto espaço quanto você. Quando a sua voz pode falar por você, mas também pelo outro. Como cantam as próprias Mulheres de Buço, “as minas todas juntas já é a nova parada”. E assim seguimos, juntas, com nossas vozes cada vez mais altas e mais fortes.

Pra quem ficou curioso, #fikdik:

MULHERES DE BUÇO

SERVIÇO

TEMPORADA: 18 de março até 04 de junho

HORÁRIOS: Sábado e Domingo, às 21h

LOCAL: Teatro O Tablado (Av. Lineu de Paula Machado, 795 – Lagoa)

INGRESSO: R$40,00 e R$20,00 (meia-entrada)

CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 16 anos

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