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Meu corpo é de Carnaval

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corpo
ô/
substantivo masculino
5.
fig. materialidade do ser; carne.
“os prazeres do c.”
10.
agregação de indivíduos, que exercem um mesmo ofício ou apresentam alguma vinculação em função de interesses comuns; corporação.
“c. de médicos”
26.
vest parte da roupa que cobre ou veste o tronco.

Essas são algumas das definições de corpo, segundo o Google. Mas poderiam muito bem estar falando do Carnaval de rua do Rio de Janeiro. O Carnaval… ah, essa época mágica do ano na qual vivemos tomados por purpurina e nossa única preocupação é aonde será que tá o Boi Tolo a essa hora. Aqueles momentos do ano nos quais podemos nos fantasiar do que quisermos, sair na rua como bem entendermos tomando nossas Catuabas, jogando purpurina e exalando felicidade (é possível). Uma época sem preocupações, sem regras, sem limites. Aqueles 5 dias de esbórnia (também conhecido como um mês no Rio de Janeiro) que você esquece que trabalha até o momento que encontra seu chefe fantasiado na rua – o que te leva a brindar e dançar com ele.

Uma das grandes virtudes do Carnaval é essa tal liberdade. Liberdade de ser, de vestir, de existir. Um momento que nos sentimos livres e não julgamos a liberdade alheia. Na qual saímos de casa com algumas preocupações diárias a menos. Uma época do ano na qual as pessoas conseguem deixar de lado muitos de seus pré-conceitos e julgamentos de valor e levam tudo de uma forma mais leve.

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Fotos: Lucas Sá / I Hate Flash no bloco Amigos da Onça

Parece forçado, eu sei, mas vai dizer que não é real em alguma instância? É claro que a sociedade é cruel em todos os momentos da nossa vida. Ela está sempre nos lembrando o nosso “lugar” dentro dela. Mas o Carnaval consegue ser uma época na qual todos podem se vestir da maneira que bem quiserem, sem terem tantas preocupações em como serão julgados ou vistos. Os homens se vestem de mulheres e as mulheres de homens, as roupas ficam curtas, ou longas, ou não existem. Nada é um problema. Tudo é motivo pra tal folia e diversão e risadas.

O nosso corpo, que é constantemente censurado, passa a ganhar um status de liberdade momentânea no Carnaval. Podemos ser unicórnios, sereias, Yemanjás (*polêmicas à parte*), sistemas solares, personagens históricos, muro do Dória… enfim, podemos ser, representar e nos sentir como quisermos. E essa liberdade, tão velada no nosso dia a dia repleto de regras e imposições da sociedade para o corpo alheio, cai tão bem que nos esquecemos como não a temos durante o resto do ano. Naqueles 5 dias podemos ser como sempre quisemos, ou como nunca sonhamos, e as coisas parecem sim mais leves. Essa é uma das magias do Carnaval.

Mas, é claro, que nem tudo são flores. A liberdade, a principal força motriz do Carnaval de rua do centro do Rio, infelizmente não nos acompanha durante o ano – e muitas vezes nem nessa época. Trouxe alguns pontos, de uma maneira rápida e sem muito aprofundamento (que é necessário, é claro), para pensarmos a respeito dessa tal liberdade.

A grande moda desses últimos anos, com uma força grande nesse Carnaval de 2017, são os bodys. De formas, cores, tamanhos, cavados, abertos nas costas, estampa de bichos, dourados, transparentes… não importa, os bodys vieram como um dos principais acessórios da moda e estão sendo usados de forma democrática. Muitas marcas estão tendo a preocupação de fazer seu produto para todos e todas que queiram usá-lo entendendo que o momento que vivemos agora é outro. Que a internet a tudo vê e tudo recrimina. Com razão.

No Carnaval, portanto, vai ter gorda, vai ter magra, vai ter preta, branca, homem, mulher, trans, vai ter geral de body. E vai ser lindo. E a gente vai amar. Agora, e quando o carnaval passar? A gente guarda esses bodys no armário e espera o grande momento em que nossa sociedade vai superar esses preconceitos estruturais e entranhados? Por que, ser cabeça aberta durante o carnaval é fácil (ou não, vide post de Rica Perrone). Mas quero ver até onde vai a liberdade da mina gorda que vai sair (sim) de body e que não tá afim de ouvir nenhum dos seus comentariozinhos preconceituosos disfarçados de preocupação com a saúde delas.

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Em se tratando de corpo, amar corpos, ver corpos, sentir corpos, nós ainda temos uma grande dívida com pessoas gordas. O problema é que a gente não sabe lidar com gordofobia (o Word inclusive tentou me dizer que essa palavra não existe). Todos, independente de onde viemos e como somos, passamos a vida ouvindo que “nossa, você emagreceu, que bom”. Agora, quem disse que isso é necessariamente bom? Por que emagrecer é sinônimo de algo positivo? Que a liberdade do Carnaval nos traga a reflexão de que cada corpo é um corpo e que beleza vai sim além dos padrões da mídia.

Uma história bacana que eu encontrei a respeito de corpo e Carnaval foi na Revista AzMina, durante uma entrevista, na qual aparece o relato de uma mulher trans que conseguiu se assumir após passar os dias de Carnaval vestida de roupas femininas. A liberdade carnavalesca pode sim gerar uma liberdade de ano inteiro (mesmo que a sociedade insista em não aceita-la). O que não deveria ter é homem que se veste de mulher no carnaval (que, convenhamos, sempre vem acompanhado de um figurino curto, uma maquiagem exagerada e uma postura extrema que é apenas uma reprodução do machismo e do estereótipo feminino criado por ele) e passa o resto do ano chamando os outros de “traveco” e “xingando” os amigos de “viado”, como se ser gay fosse algo negativo. Que liberdade é essa que no carnaval tudo pode, mas durante o ano a gente zoa o caso do Ronaldo Fenômeno? Até onde vai esse limite do carnaval?

Mais uma polêmica, por que não, de Carnaval, pra mim, é aquela relacionada às fantasias que não são bem fantasias. E nisso eu quero dizer aquelas pessoas que se fantasiam de outros seres humanos como a galera que adora sair de nega maluca ou de peruca black. É muito fácil “ser” negro quando convém, né? Na hora de ser perseguido em shopping, vistoriado em loja, tomar dura da polícia ou ser hiperssexualizado simplesmente pela cor da sua pele ninguém quer. Na hora de chamar o cabelo de ruim (que que meu cabelo te fez pra tu chamar ele de ruim?), Bombril, chamar de feio ou qualquer outro adjetivo que os negros estão cansados de ouvir, ninguém quer. Mas na hora de pular o Carnaval de peruca black porque é ~maneiro~, ninguém pensa duas vezes.

Vamos entender até onde vai nosso empoderamento. E até onde vai nossa liberdade. Carnaval é lindo, é livre, é amor e alegria. Mas bora levar isso adiante. O corpo é livre. Deixa ele ser.

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