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Em entrevista exclusiva, Anita Rocha da SIlveira fala sobre seu filme Mate-me por favor

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Foi pavimentando um caminho de curtas (“O vampiro do meio dia”, “Handebol” e “Os mortos-vivos”) que a diretora Anita Rocha da Silveira chegou ao seu primeiro longa-metragem. A partir de um processo de aprofundamento de sua linguagem e da temática jovem, Anita lançou-se na empreitada de “Mate-me por favor”. E deu certo. O filme levou o prêmio especial Bisato d’Oro no 72º Festival de Veneza, além de ter concorrido ao prêmio Première Brasil de melhor longa de ficção no Festival do Rio, tudo isso em 2015.

Apesar de catalogado como suspense ou thriller, a diretora alerta:

“É um filme que tem traços fantásticos, tem traços de suspense, de terror, mas também é um filme sobre adolescentes se tornando adultos. Tem também momentos de humor. Eu acho que acima de tudo é um filme sobre essa passagem da adolescência para a vida adulta, porém com toques fantásticos.”

Para entender um pouco mais desse filme tão cheio de nuances, decidi conversar com a diretora, em entrevista exclusiva para a NOO.

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NOO: Anita, você já citou algumas vezes como uma de suas principais influências o diretor norte-americano David Lynch. Para você, os ambientes retratados por Lynch são também distópicos, como a Twin Peaks após a morte da jovem Laura Palmer, tal como a mobilização dos moradores da Barra da Tijuca após o assassinato de jovens moças?

Anita: O David Lynch, em obras como o Twin Peaks, trabalha muito pegando um certo espaço e transformando em um universo alternativo. Então, a associação com a Barra é essa: o filme é todo passado numa região só do Rio, a Zona Oeste (Barra e Jacarepaguá, principalmente) e eu pensei nesse universo também como um universo fechado com regras próprias. É a Barra que está retratada ali, tem questões relativas à Barra, mas também é colocada como um espaço em que coisas estranhas podem acontecer. Acontece uma onda de assassinatos, e é um filme que trabalha com elementos fantásticos. E óbvio que o filme tem um toque distópico, sim, e há uma crítica da Barra, do modo como ela é organizada, a questão da classe média que busca segurança ao se mudar pra lá e vai pra esses condomínios gradeados e com câmeras de vigilância, e ao mesmo tempo tem um espaço ao lado que é um terreno baldio. E é um bairro em que ao mesmo tempo é impossível fazer as coisas à pé, você depende de um carro, de um ônibus, pra se locomover. E aí há uma certa crítica a esse modo de organização do sonho da classe média, que querem segurança dentro do condomínio e não ocupam as ruas da cidade.

NOO: Você também afirmou em outras entrevistas que “Mate-me” não teria um gênero determinado, sendo, acima de tudo, um filme de fantasia, e que através dele você buscou apenas retratar suas experiências de adolescência. Você poderia falar um pouco mais sobre isso?

Anita: Pra mim é muito difícil apontar um gênero. No lançamento, a distribuidora optou por colocar como suspense, mas pra mim é uma pergunta bem difícil de responder porque eu acho que é um filme que tem traços fantásticos, tem traços de suspense, de terror, mas principalmente um filme sobre adolescentes se tornando adultos. E que tem também momentos de humor. Eu acho que acima de tudo é um filme sobre essa passagem da adolescência para a vida adulta, porém com toques fantásticos. Grande parte do filme é sobre as transições que uma jovem está passando, e como ela está reagindo a um crime, mas não necessariamente é um filme que cria tanta tensão e clima em cima das mortes. Estas mortes estão muito mais como um pano de fundo pra falar dos dilemas internos da personagem.

O filme é inspirado muito em certas emoções e sentimentos que eu experimentei, mas também certas coisas que eu vi em amigas minhas e amigos meus. A Bia é muito inspirada em uma amiga minha que morreu quando a gente tinha uns 20 anos de idade, e era uma pessoa que vivia de um modo muito intenso. Muito daquela energia dela, que eu também tinha, e acho que faz parte de todo jovem, vem de um sentir-se invencível, de querer experimentar tudo no seu corpo e achar que nada de ruim vai acontecer com você. Por exemplo, eu lembro que eu fazia teatro quando eu tinha uns 15, 16 anos e às vezes a gente ensaiava até muito tarde. Minha mãe me dava dinheiro pra eu voltar de taxi pra casa, mas eu gostava de pegar ônibus e andar várias quadras à pé, às vezes meia noite. Eu me sentia mais dona de mim mesma por estar caminhando de madrugada no meu bairro. E eu me sentia invencível naquelas 4, 5 quadras que fazia à pé, ao mesmo tempo morrendo de medo. Eu acho que tem um pouco de mim em cada uma daquelas quatro meninas que tão ali, uma com um lado mais romântico, outra muito frustrada com o próprio corpo e sendo agressiva com isso, a outra que gosta de contar e inventar histórias e fantasiar a respeito de tudo… E o personagem do irmão tem um outro lado, que eu acho mais atual, e que diz muito sobre a minha geração, que é não conseguir amadurecer. Quando você está nos seus 20 e tantos anos e ainda se comportando como adolescente, com medo de se tornar adulto.

NOO: O filme acaba suscitando questões como o feminicídio, além da homoafetividade latente na personagem principal. Como você acredita que o filme contribui para esse debate? A homoafetividade seria só uma expressão da empatia desenvolvida pela personagem principal com as vítimas, ou existe uma mensagem além?

Anita: Há um certo momento no filme, sem querer dar spoiler, mas quando a outra menina morre nos braços da Bia, ela descobre um afeto ali, e de certo modo ela quer experimentar. Não é uma questão de a personagem ser hétero ou gay, mas de ela ser jovem e querer experimentar uma série de coisas e não se limitar ao que ela escuta, do que é “certo” ou “errado”. É também uma questão de romper com o discurso do namorado, romper com o discurso que ela escutou na Igreja, e de estar ali querendo experimentar ao máximo as coisas. A homoafetividade vai muito por aí, ela está, acima de tudo, querendo experimentar a sexualidade dela de todas as maneiras possíveis, e num ambiente que é muito conservador. E a questão do feminicídio passa muito por esse medo em que eu cresci e que muitas de nós crescemos, que é o medo do estupro, da violência sexual. Quando eu era adolescente eu lembro de ter realmente um grande pavor. A gente cresce, nosso corpo começa a se desenvolver e a gente começa a ouvir histórias que aconteceram com pessoas próximas. Minha mãe mesmo contava histórias que acabavam me metendo um grande medo de sair de noite, de botar uma roupa X, sabe? Tanto é que a questão da violência sexual no filme nunca se dá por algo que está “de fora” delas, vem de dentro das próprias meninas. Então, elas nem sabem o que é real e o que é imaginação delas, que já estão levando o medo delas pra esse assassinato. Em nenhum momento chega alguém e diz: “Realmente, houve estupro”. Isso é parte da fantasia delas e desse medo, que eu acho que é o maior medo que toda mulher tem, ainda mais quando está se tornando uma pessoa sexual. Então eu quis colocar essa questão no filme.

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NOO: “Mate-me” é o seu primeiro longa depois da produção de uma sequência de curtas com temáticas semelhantes, como “Os mortos-vivos” (2012). Você vê isso como uma consequência natural do seu processo de amadurecimento artístico? Como foi sua decisão em fazer um longa e o que você tirou dessa experiência?

Anita: Eu fui procurada por uma produtora, que é a Vânia Catani, da Bananeira Filmes. Ela tinha visto meus dois primeiros curtas, no caso meu terceiro curta “Os Mortos Vivos” ainda não estava pronto, e perguntou se eu tinha um projeto de longa. Nessa época eu tinha acabado de filmar “Os Mortos Vivos” e ela perguntou se eu tinha um projeto. Eu estava com alguns projetos já debaixo do braço, mas não gostava muito de nenhum, e nessa hora eu pensei que o que eu devia fazer era seguir trabalhando no que eu já vinha trabalhando nos meus curtas, que é fazer um filme com uma temática jovem e fantástica. Eu quis me aprofundar mais em questões que eu já tinha levantado nos curtas, principalmente no segundo curta “O Handebol”. Eu acho que foi uma decisão acertada porque eu passei anos trabalhando numa temática similar, por que mudar logo no primeiro longa? Eu sinto que eu fechei um ciclo com “Mate-me”, e que eu já vou mudar um pouco a temática e o universo no meu próximo projeto.

NOO: Se pudesse dar uma dica para jovens cineastas que querem lançar seu primeiro longa, qual seria?

Anita: A primeira dica seria: faça curtas antes. Nem que seja você com seu Iphone em casa. Tente filmar o máximo possível, cerque-se de amigos e amigas e comece a produzir filmes da maneira mais simples possível. Foi muito importante pra mim ter feitos três curtas antes, até pra desenvolver minha linguagem e, enfim, eu acho que é importante passar por esse processo. E, para jovens mulheres, é: não se deixar levar por certos machismos que a gente escuta no dia a dia. Várias pessoas dizem como uma mulher deve se portar no set, o que deve fazer, qual a função mais indicada para uma mulher. Volta e meia a gente escuta umas coisas assim. De uns 10 anos pra cá, desde quando eu comecei a filmar, muita coisa já mudou de um modo bem positivo. Mas é só não se deixar abater por esses comentários e seguir fazendo as suas coisas. Seguir experimentando, fazendo histórias… Eu fiz meu primeiro curta da maneira mais simples possível, não tinha quase nenhuma grana, então eu desenvolvi um roteiro com um personagem só basicamente, sem diálogo e todo filmado de dia, porque não eu podia pagar por luz artificial. Então, é pensar em conceitos fáceis de se executar e começar a filmar da maneira que for. Pensar: “O que eu posso fazer em pouco tempo, com uma câmera e mais um amigo me ajudando?” O que a gente pode fazer?” Aí uma hora ou uma produtora vai te procurar, ou você mesmo, tendo já uns curtas debaixo do braço, pode ganhar um edital.

 

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