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Junho de 2013 ou fevereiro de 2016?

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Foto: André Coelho/O Globo

* Texto de José Mario Marques publicado no dia 16 de julho de 2016

O Carnaval de rua no Rio terminou como começou: com violência gratuita da Guarda Municipal em blocos clandestinos. Foram pelo menos dois casos graves. Na abertura não-oficial, a repressão a um ambulante causou revolta entre os foliões e, em vez do diálogo, os agentes utilizaram balas de borracha e spray de pimenta. Voaram garrafas na direção dos guardas, outra temeridade. No encerramento da folia, a dispersão forçada de um bloco na Lapa, já de madrugada, causou fratura exposta em pelo menos um dos foliões. E muitos hematomas em vários outros.

É assustador pensar que a violência partiu não só da guarda municipal, mas da sua “tropa de elite”: O Grupamento de Operações Especiais (GOE). Os agentes (supostamente) mais bem preparados. Basta olhar para eles e seus equipamentos para perceber a vocação bélica daqueles cães de guarda. Isto porque a Guarda Municipal ainda é proibida de usar armas letais, mas há discussões nas casas legislativas municipais e estaduais fluminenses para a militarização dos guardas.

Em Niterói, por exemplo, o uso de pistolas deve começar já no segundo semestre deste ano. Com cassetetes e taser (aquela arma que dá choque), eles já fazem o que fazem. Imaginem com uma pistola à tira colo.

A violência por parte do estado não é nova. Quando os cidadãos tomaram as ruas e os espaços públicos a partir de junho de 2013, a repressão se naturalizou contra professores, estudantes e mascarados – mascarados, assim como Batmans, Pierrôs e Colombinas de fevereiro de 2016. Há, afinal de contas, semelhanças na retomada do carnaval de rua espontâneo e os protestos que ficaram para trás: a reapropriação da rua de quem é dono dela por direito.

SANDRO-VOX

Foto: Sandro Vox

Nós andaremos pelas ruas, sem dar satisfação às autoridades, do percurso, do tempo e do objetivo. Cantemos marchinhas ou brados de esperança. É isso que está sendo dito pelas ruas, e que nossos representantes precisam aceitar.

Ainda lembro da emoção que senti quando, durante um dos primeiros ensaios da história do bloco Amigos da Onça, tomamos a escadaria do Theatro Municipal, na Cinelândia. Dito “municipal”, o teatro se restringe a abrigar eventos com ingressos a preços inacessíveis. Era o que acontecia naquele dia. Nas sacadas, os engravatados aplaudiam e cantavam junto com o bloco. O teatro nunca havia sido tão municipal. E os foliões gritavam: “Desce, desce”. (Ou isto foi num protesto em junho? Já nem me lembro. Tanto faz).

Assim como os blocos clandestinos, não havia hora para acabar a caminhada dos protestos. Em ambas as manifestações populares, apesar da seriedade de uma e da leveza de outra, há um lado lúdico. E, sobretudo, a retomada do espaço público como de fato pertencendo ao cidadão. É uma sensação de pertencimento à cidade difícil de ser explicada quando se ocupa as escadarias da Câmara, da Assembleia Legislativa, do Teatro Municipal. São os locais de quem toma as decisões. Mas, ali, àquela hora, quem toma a decisão é você.

A escalada de violência, iniciada tanto nos protestos quanto nos blocos de carnaval, pode, sim, ser uma ameaça a espontaneidade da folia carioca. Nem todos os foliões querem se submeter à micareta que se tornaram os grandes blocos oficiais. (Calma! Isto não é um libelo moralista: a pegação é válida, validíssima, mas o carnaval do Rio é muito mais do que isso).

É a própria Prefeitura do Rio que quer tornar o carnaval de rua superlativo e precisa arcar com as consequências. “O maior show da terra”, propagam em folders e guias turísticos distribuídos ao redor do mundo.

Fantasia não é chapéu de patrocinadora. Marchinha não é Anitta. A anarquia do carnaval não cabe em desfiles predefinidos. É necessário ter o mínimo de bom senso, claro, para fugir das vias vitais à cidade ou evitar blocos tarde da noite em áreas residenciais. Mas não vai ser o Estado quem vai decidir isso.

O carioca é cascudo, já está acostumado a levar porradas. Que o digam os manifestantes e, agora, os foliões. Mas se é na base da porrada que o futuro prefeito tratava a ex-mulher, como vocês acham que as autoridades iam nos tratar no carnaval?

 

*Foto de destaque: Gabriel Barreira/G1

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