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Gente à frente do tempo

Uma coisa sempre me impressionou no filme O Grande Ditador, de Charlie Chaplin. Não, não estou falando do talento multimídia do humorista britânico que, sozinho, escreveu, produziu, dirigiu e protagonizou – tudo com maestria – essa comédia dramática que satiriza Hitler e que rapidamente se tornou uma das obras mais aclamadas da história do Cinema. É claro que todo esse amplo domínio que Chaplin tinha da linguagem cinematográfica já é impressionante por si só; assim como é impressionante a capacidade que o desastrado personagem do barbeiro judeu (criado por ele para ser um contraponto à figura sisuda do ditador) tem de nos fazer sorrir e chorar, quase que ao mesmo tempo. Entretanto, existe um dado sobre o filme, eu diria que bastante simples até, que o torna ainda mais impressionante: a sua data de lançamento.

O Grande Ditador, primeiro filme falado de Charles Chaplin, ícone da era do cinema mudo, foi lançado em 1940, apenas um ano após o início da Segunda Guerra Mundial. Isso mesmo: Chaplin teve a “audácia” de investir um milhão e meio de dólares do próprio bolso para ridicularizar Hitler em uma época em que os Estados Unidos – e, consequentemente, Hollywood, onde estava radicado para produzir seus filmes – ainda se mantinham criminosamente neutros em relação à ascensão do projeto nazista na Europa. Quem é familiarizado com a rotina de trabalho no universo do Cinema sabe que o espaço de tempo entre ter uma ideia e vê-la materializada na telona é enorme: existe a pré-produção, que envolve a criação do roteiro e suas respectivas revisões; a produção em si, que envolve o próprio set de filmagem, quase sempre penoso (dizem que Hitchcock levou sete dias filmando a famosa cena do chuveiro em Psicose, que tem pouco mais de três minutos de duração); e a pós-produção, que envolve a montagem ou edição (as olheiras dos editores de vídeo falam por si próprias sobre esse processo). O que tudo isso quer dizer? Se em 1940, quando foi lançado, O Grande Ditador já era um filme à frente do seu tempo, imagine quando já existia de forma imaginada, na mente fértil de Chaplin, muitos anos antes? Teria sido Chaplin, esse verdadeiro mágico da Sétima Arte, que arrebatava multidões ao redor do mundo com a sua sensibilidade, capaz de impedir o Holocausto se o filme tivesse sido lançado ainda mais cedo?

Às vezes, eu penso nos acontecimentos cotidianos como quadros do pintor impressionista francês Monet: de perto, parecem apenas uns borrões; logo, é preciso um certo distanciamento para compreendê-los em sua totalidade. Hoje, com a quantidade de livros disponíveis sobre o tema, não é difícil perceber o quão desastroso e indefensável o Holocausto foi. Entretanto, lá do olho do furacão, quão turva era a visão das pessoas? Quantos não foram seduzidos, em um momento de fraqueza, pelos discursos inflamados de Hitler, que prometiam uma solução milagrosa para a crise na Alemanha? Hoje é fácil julgar, mas vale lembrar que a máquina de propaganda do ministro Goebbels vendia campos de concentração como animadas colônias de férias. O partido nazista incluiu, de forma maquiavélica, as palavras “Socialista” e “Trabalhadores” no nome. E naquela época, meu amigo, o acesso a fontes alternativas de informação era muito mais escasso. O resultado? O nazismo angariou simpatizantes não apenas na Alemanha, mas nos quatro cantos do planeta. Não foram poucos os arrependidos depois.

Charles Chaplin, certamente, não foi um desses ludibriados pela retórica populista de Hitler: percebeu o absurdo daquela situação enquanto esta ainda estava, de certa forma, incipiente, e deu de presente ao mundo O Grande Ditador. Não quero desmerecer outros diretores que também se debruçaram sobre o tema, mas imaginem a bibliografia a qual Steven Spielberg teve acesso para realizar A Lista de Schindler, em 1993; ou que Roberto Benigni teve para realizar A Vida é Bela, em 1997; ou então, apenas para citar exemplos mais recentes, que Roman Polanski teve para O Pianista, em 2003, ou Mark Herman teve para O Menino do Pijama Listrado, em 2008. Veja bem: de forma alguma é possível afirmar que O Grande Ditador é superior, em qualquer aspecto, aos outros filmes citados; talvez alguns deles sejam até mais completos e contundentes e ainda corremos aqui o risco de entrar no subjetivo campo da preferência pessoal. Mas a principal diferença é que Chaplin tinha poucas ou quase nenhuma referência à época de sua realização.O Grande Ditador é fruto de uma fenômeno fascinante: uma pessoa à frente do seu tempo. Sim, alguém lá na década de 1930 percebendo os acontecimentos à sua volta com um olhar muito próximo ao de alguém em 2017. E cá entre nós: seu discurso humanista na última cena do filme, em novos tempos de ascensão da extrema-direita no mundo, permanece atualíssimo.

Chaplin foi um dos poucos, mas não o único na história da humanidade a driblar a aparentemente instransponível barreira do tempo, do contexto histórico ao qual pertencemos de forma inexorável. Imaginem a expressão dos presentes quando o neurologista austríaco Sigmund Freud, criador da psicanálise, proferiu suas primeiras palestras sobre o inconsciente humano, que envolvia até a sexualidade dos bebês, no conservador Estados Unidos, em 1909? O mesmo vale para o naturalista britânico Charles Darwin que, alguns anos antes, em 1859, causou indignação entre os criacionistas ao apresentar a sua teoria da evolução das espécies. Hoje, boa parte do planeta é regida pelos estudos de Freud, Darwin, Marx, Platão. E o que dizer do florentino Leonardo da Vinci, outro talento multimídia que, dentre tantos feitos notáveis na pintura, na anatomia e na engenharia, desenhou o primeiro protótipo de um helicóptero quando ainda nem existia tecnologia no mundo para construí-lo?

Falando em tecnologia, vale lembrar que, antes do advento do telefone, da internet, a comunicação entre o ocidente e o oriente era muito mais limitada. Isso fez com que os ocidentais redescobrissem coisas que sociedades milenares do oriente já sabiam há muito, muito tempo. O filósofo pessimista alemão Schopenhauer, por exemplo, ficou surpreso ao entrar em contato com escrituras sagradas budistas pela primeira vez, em 1818: percebeu ali uma semelhança enorme entre os seus pensamentos e os do príncipe indiano Siddharta Gautama, o Buda (ou “o Desperto”), nascido em 485 a.c., principalmente no que diz respeito à ausência de um Deus criador no universo. A própria meditação, que também tem sua origem na Índia (e uma das oito práticas que, segundo Siddharta, constituem o caminho para atingir a Iluminação), hoje tem seus benefícios amplamente comprovados pela Psicologia e pela medicina ocidental, em geral. Essa mesma medicina que já chamou de pseudociência a acupuntura, técnica que teve sua origem na medicina tradicional chinesa, e que hoje também é amplamente aceita em sua literatura. Esses orientais são mesmo danados… Como diria Gilberto Gil: se oriente, rapaz!

Com tantos exemplos fascinantes de pessoas à frente de seu tempo ao longo da História (não seriam as mesmas a escrever a História?), acompanhar os noticiários tornou-se uma missão amarga nos últimos anos: repleto de movimentos retrógrados, o mundo agora parece sofrer um fenômeno contrário: pessoas pensando atrás do seu próprio tempo. Quantas saudades, Chaplin.

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