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EU ABORTEI

Engravidei aos 15, do primeiro namorado. E abortei.

Foi com cytotec, o remédio pra úlcera gástrica. Dois comprimidos via oral. Dois enfiados na vagina. E uma noite de cólicas que reviraram o meu útero pelo avesso. Sozinha, deitada em posição fetal, abraçada a uma bolsa de compressa quente.

Como se a vida de uma adolescente esquisita que gosta de quadrinhos já não fosse cheia de drama…

Sexo era tabu. Ainda é. Apesar de aparecer nos bares e nas conversas de família.

Só agora, dez anos depois, consigo falar sobre o assunto sem desespero nem resquícios de culpa.

Lembro da mãe, espírita, argumentando que esse era um crime contra a vida.

Lembro do pai correndo pra área de serviço, tremendo e chorando. “Você enfiou uma faca no meu coração”.

Passei um ano sem transar.

Uma mulher não aborta como quem vai ao show da banda preferida ou ao cinema, ver o filme novo da Petra Costa. Uma mulher aborta porque não quer ou porque não tem estrutura psíquica, física ou material pra ser mãe. E tudo bem.

Depois de tudo, me empoderar dos meus desejos ainda demanda energia e paciência.

Por outro lado, minha história é tão banal que me sinto meio boba. Tão banal e, ao mesmo tempo, vejo pouquíssimos relatos assim.

Aí resolvi falar. Nem que fosse só pelo poder da afirmação.

Porque posso. Porque sobrevivi. Sou uma mulher branca de classe média-alta, que, mesmo usando remédio, teve acesso a uma clínica segura pra retirar os resíduos do embrião. Não uma das tantas – a maioria negra e pobre – que morre em salas precárias. Por procedimentos açougueiros. Por curetagens mal feitas.

Ou ao tentarem, por conta própria, resolver o problema. Uma mulher que aborta é como um bicho preso numa armadilha.

Em cada círculo social por onde passo, escuto variações da mesma história. Da doméstica que já tinha muitos filhos à jovem moderninha se virando como pode numa dessas capitais.

Até quando vamos fingir que essa não é uma realidade?

Até quando vamos negar que são as mulheres quem mais sofrem?

É muito fácil um homem desistir de uma filha. Basta ir embora. São mais de 5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro de nascimento no Brasil. Enquanto isso, abortos mal feitos são a quinta maior causa de morte materna no país.

É forte o poder da negação.

Se abster nos faz cúmplices.

Como pode um estado que se diz laico apelar para a religião quando cientistas atestam que, até o terceiro mês de gravidez, o sistema nervoso ainda não se formou?

Por que, nos leitos dos hospitais, usamos a morte cerebral como parâmetro de vida e, para um feto, não vale o mesmo critério?

Por que sustentamos o mito da maternidade às custas da vida de tantas mulheres e de tantas órfãs? Muitas daquelas que interrompem a gravidez têm outras filhas esperando em casa.

A cada dois dias, uma mulher morre* num aborto clandestino no Brasil. Até quando?

*Estimativa da Organização Mundial de Saúde.

*Nota a quem interessar possa: as opiniões explicitadas nesta matéria são exclusivamente do autor. A NOO é um espaço aberto ao debate, queremos estimular a troca de ideias. Se você tem uma visão diferente sobre esta ou outras questões, sinta-se mais do que livre para enviar sua opinião pra cá: contato@noo.com.br – Se ela for construtiva e bem embasada, ficaremos felizes em publicá-la ; ) 

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