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Matching no tempo: quando as gerações se encontram no guarda-roupa

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De Jane Birkin de ‘mom’ jeans descombinando com smoking à Mick Jagger usando roupas do guarda-roupa da namorada Marianne Faithfull a moda sempre brincou, há muito tempo, com os limites de gênero e, principalmente, com o jeito masculino e sexy ao mesmo tempo. Exemplo disso é o fenômeno que vivemos hoje: jaqueta poderosa anos 80 da mãe, pijama de seda da vó, jeans do pai, algo moderno da irmã, tees do irmão, brechós da esquina e aquele amigo que quer ir com você na loja vintage e você dá perdido para ter os achados só para você. Quem nunca?

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Chegamos em 2016 onde nada mais se cria mas tudo se recria, a diferença é essa. Fast fashions mais antenadas recriam velharias boas do closet da  família assim como maisons têm reproduzido roupas características de brechó de luxo e sua estética fun exagerada. Resultado de uma geração inquieta, em movimento e, mais do que isso, a principal característica dessa fase de recriar roupas misturando códigos antigos da sociedade e sua história é a necessidade de flexibilidade e praticidade. Não se tem mais tempo em uma cidade globalizada. E, mesmo que o indivíduo tenha algumas horas livres, é claro que o inconsciente vai estar programado para dizer e pensar que não tem. Para isso, roupas práticas que servem para o dia e para noite tem despertado mais o desejo dos jovens do que roupas elaboradas que necessitam de alguns minutos frente ao espelho antes de sair de casa e pegar trânsito. O uniforme é esse. Ser original hoje é vestir gerações anteriores da sua e conseguir deixar com um ar atual, seja complementando com o cabelo “à francesa” ou com o humor falso de um jovem Y. A moda tem esse poder. O poder de diferenciação individual através de códigos antigos.

A sociedade e o humor se comportam à medida que a cidade se transforma e amadurece, assim como a moda.  Há também a moda que se comporta através das transformações da sua própria vivência, mas as características da cidade, inconscientemente sempre estarão dentro de você, segundo Roland Barthes em “O Sistema Da Moda”, 1979. Um Rio de Janeiro mais sóbrio e mais politicamente discutível abertamente como encontra-se hoje nos cenários mais democráticos reflete no modo que os sujeitos agem e se vestem atualmente na cidade tropical. Por um lado, há sociólogos que analisam o fenômeno de tal forma sem destacar a necessidade da praticidade e do reflexo da cidade no guarda roupa, por outro, há sociólogos e psicanalistas que defendem o uso de códigos culturais anteriores ao seu como forma de originalidade e como reflexo das ruas e da era midiática no modo de vestir.

Analisa-se que, a moda satisfaz, por um lado, a necessidade de apoio social na medida em que é imitação; ela conduz o indivíduo às trilhas que todos seguem. Ela satisfaz, por outro lado, a necessidade da diferença, a tendência à diferenciação, à mudança, à distinção, e, na verdade, tanto no sentido da mudança de seu conteúdo, o qual confere um caráter peculiar à moda de hoje em contraposição à de ontem e à de amanhã, quando no sentido de que modas são sempre modas que se encontram em algum momento.

É comum que a cada hora os sujeitos adotem um padrão estético, o mesmo tempo que usam da moda mainstream também procuram se diferenciar uns dos outros, se inspirando e tendo como referências a moda das subculturas, revivendo estilos do passado e de sua família a seu modo. Essa carência de conforto talvez seja o que pode aproximar, e ao mesmo tempo, discriminar o conceito de transitoriedade para Sigmund Freud, uma vez que no texto poético freudiano “Sobre a Transitoriedade”, (Freud, 1916), aponta com muita agudeza que pensar no que é transitório, de geração para geração, evoca uma antecipação da morte, o que remete a um luto a ser superado, um desapego a ser experimentado. Para ele o encontro com a transitoriedade dos objetos do mundo demanda um luto a ser atravessado numa duração de tempo que permita o circuito pulsional adquirir um caráter circular, no sentido do objeto perdido, ou velho, para o novo, passando obrigatoriamente em algum momento pelo investimento do próprio eu. A individualidade.

A moda pode passar então a ser analisada a partir de seus movimentos dualistas e antagônicos. A oposição entre aproximação e distanciamentos, igualar e diferenciar, reunir e afastar, ontem e amanhã, individualidade e coletividade, classes altas e baixas passam então a fazer parte dos conceitos de moda.

Se a moda for apenas entendida como um pólo de manifestação efêmera, onde o que vestir é mais importante do que o por quê vestir, ela surge, sim, dos modos de produção capitalista desencadeados nas sociedades modernas. Entretanto, se a moda for encarada como manifestação, onde os dizeres se traduzem na estética visual, ela nasce nos primórdios civilizacionais, quando as peças de vestuário deixam de fazer parte de um quadro de funcionalidade material e surgem como elementos de um sistema linguístico cultural onde códigos são mais importantes que o ego.

Para Barthes, o que dá sentido aos códigos “não é a repetição e sim a diferença”. É nesse sentido que as peças de vestuário compõem o quadro linguístico da moda. As roupas formam e transformam a linguagem efêmera da moda, fazendo com que a exploração do visual seja uma constante a movimentar a dinâmica do campo. Todavia, o caráter mais importante da moda não é o da efemeridade, do glamour, ou do luxo. Quem está perto da moda sabe que isso não existe. A moda emerge como um campo rico para análises quando ela é tida como um esboço comportamental das sociedades, quando é encarada como um ambiente onde os indivíduos manifestam valores, criam e recriam sentidos pela face da mixagem de códigos de gerações anteriores como objetivo de resultar a sua auto originalidade. Usar roupa da tia nunca fez você ser tão você.

 

 

 

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