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Danieli Balbi: 27 anos, mulher e bem resolvida

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Foto interna e destaque: All images © Can Dagarslani

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Danieli Balbi: 27 anos, pesquisadora de doutorado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, professora, negra, filha de mãe solteira, nascida em comunidade e trans. Dani, como é chamada pelos amigos, contraria todos os dados estatísticos. Uma história dura e de sorte, afinal, não sucumbir é apenas para os fortes.

Disforia de gênero é o termo médico que designa quando alguém sente que a sua construção não está de acordo com a sua formação biológica.

“É tão difícil ser transexual! O desconforto é muito grande, muitas meninas não têm apoio da família. Eu tive a sorte de ser acolhida pelas minhas amigas, mesmo que eu não pudesse dividir tudo isso com os meus familiares, eu tive pessoas comigo.”

Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, 90% das transexuais são profissionais do sexo. Esse dado indica a dificuldade na inserção dessas pessoas na sociedade. Apesar dos movimentos organizados estarem atuando fortemente na conscientização popular, ainda há muito a fazer. A legislação brasileira ainda é muito incipiente, no início de outubro deste ano, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) João Otávio de Noronha determinou que a alteração do registro civil não esteja mais atrelada a cirurgia de redesignação de gênero. Porém, a onda de conservadorismo é muito grande, temos políticos na Câmara tentando impedir alguns direitos adquiridos tão duramente, como, por exemplo, a utilização do nome social. O motivo? Apenas preconceito.

Dani fez a cirurgia de mudança de sexo há dois meses, depois de passar por alguns episódios complicados em sua vida. Após um ano novo com as amigas, onde não pôde usar biquíni, ela decidiu que no próximo ano não iria passar dessa forma. Dito e feito. Com a ajuda de amigos, alguns empréstimos no banco e até mesmo com uma vaquinha feita pelos alunos.

Há pouco tempo havia cinco hospitais públicos que faziam a cirurgia de mudança de sexo no Brasil, atualmente esse número já caiu, já que o hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, devido a crise do Estado não está mais realizando o procedimento. Os pacientes que aguardavam na fila para a cirurgia tinham, em média, um tempo de espera de 10 anos.

Um SUS ineficiente e uma burocratização da cirurgia dificultam o procedimento, aprisionando meninas e meninos à imagens que não os representem.

“Você precisa ter no mínimo 21 anos, ter quatro laudos e acompanhamento médico de psicólogo, psiquiatra e endócrino. Qualquer cirurgia precisa de acompanhamento médico, mas é necessário ter um cuidado efetivo, pois há uma burocratização grande. Limitar e normatizar é muito ruim. O profissional da saúde e o paciente precisam ter mais autonomia. Será que são necessários dois anos para fazer a cirurgia? Além disso, durante muito tempo havia o tabu da perda do prazer sexual, até a avalição psicológica era embasada nisso, o paciente disposto a fazer a cirurgia não poderia dar importância a perda de prazer. Isso é um absurdo. O que temos com tudo isso é o Estado controlando a genitália, o nosso corpo e a atividade sexual, tudo isso de uma forma conservadora.”

Olhar a questão de identidade de gênero como distúrbio, já que a transexuliadade faz parte da Classificação Internacional de Doença (CID), traz algumas discussões à tona, pois a percepção de identidade de gênero como patologia implica na busca de uma cura, pensamento que corrobora para a construção do preconceito.

“Militar pela despatologização tem que ter o seguinte horizonte: entender que todas as pessoas têm a sua identidade. Seja cisgênero ou transexual. A gente precisa abolir essas categorias e aí sim entender que cada ser humano terá uma manifestação de gênero e sexualidade diferente, não precisando que isso seja enquadrado em uma patologia médica.”

Segundo a Organização Não Governamental Transgender Europe, o Brasil é o país que mais mata transexuais. A cada 21 horas uma nova vítima de preconceito entra para a estatística. Em uma paradoxo hipócrita, é o país que mais busca pornografia transexual no site RedTube (dado retirado de pesquisa realizada pelo próprio site).

Verbos expressam ação e, como uma boa professora de português, Dani sabe conjugá-los bem. Construir, sobreviver e avançar são os seus prediletos. Agora peço licença à professora e incluo o verbo “compor” para fechar as quatro conjugações. Construir, sobreviver, avançar e compor. Quatro conjugações, quatro ações e um único desejo: sobreviver ao preconceito para avançar na discussão sobre gênero, a fim de compor uma sociedade onde o direito de construir a própria identidade seja uma realidade, e não mais uma luta diária.

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