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Da raiz: a consciência

lucaslandau_gabrielabispo

Fotos: Lucas Landau

Eu sempre me reconheci como negra. Assim, “matematicamente” falando, nunca tive dúvidas em relação a isso. Avós negros, pais negros, traços característicos… Ok, ‘tá tudo certo, eu sou neguinha. Vivi até os 25 anos na maior paz, nunca tinha entendido muito bem o porquê de as pessoas me perguntarem sobre ter sofrido preconceito. “Preconceito, eu?”. Estudei em colégio particular, fiz pré-vestibular, passei em um dos cursos mais concorridos da UFRJ sem cotas. Transitei por todos esses meios e segui ilesa (?). Não entendia direito do que as pessoas falavam quando se referiam a racismo. Minha vida era mó tranquila, vai.

Comecei a alisar meus cabelos com 13 anos. Não sabia como cuidar deles do jeito que eram, minha mãe também alisava e era mais fácil desse jeito. Foi assim, por 12 longos ciclos de 365 dias. Até que, em certo ponto da minha rotina de idas trimestrais ao salão de beleza para retocar a raiz, senti um incômodo. Começou a me machucar o fato de ter que mudar algo que era meu para me sentir bem em sociedade. Eu não conhecia o meu fio crespo, nem lembrava mais de como era. Rolou um estalo: talvez naquele momento eu estivesse entendendo como o racismo opera.

Escrevo esse texto no mês da Consciência Negra. Em todo dia 20 de novembro, nós, negros, resgatamos a importância de Zumbi dos Palmares para a luta e reafirmamos a relevância da história do nosso povo, atualizando as pautas. E eu devo dizer que só me tornei uma negra consciente de que sou negra há mais ou menos um ano, aos 25, quando, do incômodo gerado pelas retocadas na raiz crespa, veio uma angústia maior: quem sou eu nesse Brasil que se diz miscigenado e totalmente livre de preconceitos raciais?

É o seguinte: nascer negra e ser criada em uma família negra de classe média não fez de mim, automaticamente, uma jovem consciente sobre o que eu e 54% da população brasileira, declarada negra, representamos. O fato de eu querer passar pela transição capilar e voltar ao meu cabelo crespo foi só o começo de um processo de identificação profundo que ainda vai levar tempo para se firmar. Não é fácil, afinal de contas.

Veja bem: não julgo quem alisa o cabelo nem acredito que isso faça da pessoa alguém inconsciente do papel que exerce. Importante frisar: esse foi o meu ponto de partida. Consciência é fruto de autoconhecimento. E é lindo demais quando a gente se entende, se respeita e se aceita. A partir do momento em que resolvi e banquei a decisão de não ser mais lisa, passei a buscar toda a sorte de informação que me mantivesse firme nesse propósito. E aí, não tive escolha… Uma vez imersa na cultura afro, toda a vida mergulhada nela.

Graças ao Youtube, aos maravilhosos fóruns dos grupos do Facebook e aos ótimos textos que circulam nessa internet lynda, a minha transição capilar tem sido muito mais fácil do que eu imaginava e, para além da mudança visual, venho sendo internamente transformada. Eu já tinha lido a autobiografia do Malcolm X (um livrão!), mas compreendi que o racismo não é individual, e sim estrutural, quando passei a ler as postagens de Djamila Ribeiro nas redes. Colorismo, afroconveniência, apropriação cultural e outros mil termos relacionados à vivência do negro só se tornaram palatáveis para mim depois de assistir aos vídeos dos canais da Nátaly Neri, Gabi do De Pretas, Ana Paula Xongani, Neggata e outras, que têm feito a diferença na construção da consciência de tantas minas negras.

O meu empoderamento, assim como o de muitas outras garotas, veio do virtual para o real e eu sou grata, porque, de alguma maneira, ele veio. Da estética, com a geração tombamento, à política, com a Djamila e outras, às artes, à educação, enfim, a todos os espacinhos, é bom demais perceber que tem mais gente consciente. Isso dá força para semearmos mais e colhermos frutos vistosos para a nossa luta ali na frente.

Saber que sou negra e estar consciente disso tem sido a melhor das melhores experiências da minha vida até hoje. Não porque a situação do negro seja a mais tranquila possível. Está longe de ser, é só abrir o Google e procurar as últimas notícias e estatísticas para perceber que não. Mas, de toda forma, é incrível sermos quem somos. É reconfortante se sentir parte de um movimento que te dá forças para lutar por uma sociedade mais justa para todo mundo. Corra atrás da sua consciência. Seja do que for: negra, feminina, lésbica, trans… Corra!

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