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As conversas que nunca tivemos

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privilégio, feminismo e representatividade na visão de uma mulher branca

Na quarta de cinzas, antes da apuração, me perguntaram para que escola eu torcia e eu disse sem titubear: Portela. Sou Portela desde criancinha. Mas a verdade é que nunca fui na quadra em Oswaldo Cruz, nunca fui ao sambódromo ver um desfile oficial e nem sabia que a Portela tinha chances de ganhar esse ano. A razão de eu ser Portela de coração tem a ver com uma pessoa que eu não vejo há mais de 15 anos.

A Deise é portelense e lembro de vibrar como nunca quando ela disse que iria desfilar. Passei a noite grudada na TV, torcendo pra que a globo a filmasse.

Com a Deise, aprendi a gostar de samba, funk, pagode e Planet Hemp. Eu, ela e meu irmão escutávamos música aos berros, até algum vizinho reclamar. Eu tinha uns 8 anos e cantava “hohohoho faz o Papai Noel, popopopo e nego não vai pro céu”. Eu não fazia ideia do que eu cantava, gostava porque tinha Papai Noel no meio.

Nessa mesma fase, quando eu ficava sem sono, corria para o quarto dela e ficávamos vendo Xica da Silva na Manchete, sem minha mãe saber, é claro. Lembro de achar graça das mulheres de peito de fora.

A coisa que a Deise mais gostava de fazer era bater perna na rua. Lá íamos nós duas pra lá e pra cá na Voluntários da Pátria. Ela era amiga de todo mundo: do jornaleiro, do padeiro, das balconistas, do segurança, dos porteiros, dos camelôs, das caixas do mercado… todo mundo era conquistado pelo seu sorrisão e pelo seu carisma. E lembro que os homens ficavam loucos por ela e não poupavam comentários. Nessa época, eu achava que as cantadas eram normais, e faziam parte, por ela ser bonita e “chamar atenção”. Acho que ela também pensava que tinha que aceitar aquilo e encarar como um elogio.

Só anos depois, eu percebi que aquilo era assédio, que aquilo era a sexualização da mulher, da mulher negra vista como carne, como mercadoria. E há um tempo, me pergunto se a Deise também percebeu ou pensou sobre isso nesses últimos 15 anos.

A Deise é negra, alta, e usava óculos e tinha um black power quando nos conhecemos. Mas um tempo depois, de um dia para o outro, eu acordei e dei de cara com uma mulher com cabelo liso escorrido e olhos azuis. Tomei um susto, e, por um segundo, achei que era uma desconhecida, até ver aquele sorrisão no rosto. Era a Deise com visual novo, se achando mais linda do que nunca. Confesso que achei aquilo muito doido, mas ela tava tão feliz com seu mega hair e suas lentes, que quem era eu para falar algo?

Só anos depois, eu percebi que aquilo era uma tentativa dela de se encaixar num padrão de beleza imposto pela sociedade. Era um forte indício da falta de representatividade da mulher negra. Não havia Deises em capas de revistas ou em propagandas. Na TV ela só se via como as escravas em Xica da Silva ou como as empregadas de outras novelas. E não havia produtos adequados para ela cuidar de sua pele e seus cabelos. Lembro até hoje do cheiro do henê que ela passava toda sexta-feira no cabelo. Lembro dela mesma cantar “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?”, enquanto tentava “dar um jeito” no seu cabelo. E há um tempo me pergunto se a Deise está conseguindo se ver mais representada por aí, se ela assumiu seu black, se ela conhece mulheres como a Karol Conka, a pequena MC Soffia, Viola Davis, Djamila Ribeiro, Marielle, e tantas outras mulheres negras que mostram a importância da representatividade e do feminismo negro.

A Deise era a empregada lá de casa. Por mais que ela tivesse entre as minhas melhores amigas e que ela conhecesse toda a minha família, mesmo eu sendo criança, eu já sabia que era inocência demais e hipocrisia dizer que “ela era da família”. A Deise dormia em um quartinho nos fundos e usava um banheiro micro. Apesar de eu achar aquilo ruim, em algum lugar, preferia acreditar que era normal. Afinal, as empregadas da minhas amigas também viviam daquele jeito, ou até de maneiras piores.

Só anos depois, eu percebi que aquilo não podia ser normal, que era herança do nosso sistema escravocrata, era um resquício da casa grande e senzala. E há um tempo, me pergunto se a Deise percebia isso, penso em como ela se sentia… E será que ela já assistiu “Que horas ela volta?”, “Casa grande”? Será que ela comemorou a PEC das domésticas?

A Deise saiu lá de casa porque os seus sonhos iam muito além daquele quartinho. Fiquei triste, chorei de saudade… Mas hoje, apesar da saudade, fico muito feliz que a Deise foi atrás do que ela queria para si, e não do que a sociedade dizia que ela deveria querer.

Adoraria saber como ela tá, adoraria ouvir suas histórias, e adoraria agradecer por ter tido alguém como ela na vida. Muito além da Portela, e da música, a Deise me ensinou valores preciosos. E, mesmo 15 anos longe, ela ainda me faz me questionar, querer crescer e ser melhor.

Como eu queria perguntar todas essas coisas a ela, mas depois me calar. Ouvir e ouvir tudo o que ela pensa, tudo o que ela tem a dizer.

Ps: Há um tempo, tenho tentado fazer o exercício de ouvir mais e falar menos. Meu medo com esse texto era correr o risco de falar de algo que sei que nunca vou sentir, de roubar o lugar de fala de quem realmente sente na pele o racismo. Pra quem não sabe, sou branca, cis, magra e de cabelo liso. Meu lugar de fala é, e sempre será, (até que as coisas mudem radicalmente) de alguém que tem privilégio branco. De alguém que sabe que tem uma série de privilégios, e que, cada vez mais, entende porque é preciso haver feminismo negro e representatividade, e que sabe que mulheres como eu podem apoiar a luta da mulher negra, mas que nunca saberão o que é ser negra.

O tema proposto pela NOO foi “corpo”, e sei que, independentemente de como você seja, a primeira coisa no seu corpo que vai ser notada é a cor da sua pele. Por isso, eu não podia falar de outra coisa.

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