Do Rio para o mundo, uma plataforma de opiniões, sempre em busca

Conversa sobre depressão e empatia

black-and-white-person-woman-girl

Desde a época em que eu estava em meados da faculdade de Psicologia, tenho escutado uma pergunta com certa frequência. Depois de formada – quando as pessoas passam a te associar mais concretamente à sua profissão – essa questão foi sendo indagada cada vez mais para mim. Pelos meus amigos, familiares e até mesmo amigos de amigos, que acabam de me conhecer e ali, naquela conversa informal, surge a tal pergunta: “Ana, você sabe o que tem acontecido de uns tempos para cá que cada vez mais aparecem pessoas com depressão?”.

De fato o número de pessoas com depressão vem crescendo a cada ano. Estima-se que mais de 400 milhões de pessoas no mundo sofram com a doença. Atualmente, a depressão já é considerada pela Organização Mundial de Saúde a doença mais incapacitante do mundo – algo que foi previsto para acontecer somente em 2030, foi alcançado em 2010. Provavelmente você que está lendo isso agora, ficou ainda mais assustado. Por mais que fiquemos sabendo de uma ou outra pessoa, algumas vezes até dentro da nossa família ou, quem sabe, por experiência própria, mas, provavelmente, não imaginamos um número tão grande assim, não nos damos conta da gravidade que esse problema vem alcançando.

Depois de muito observar e refletir sobre esse assunto e do mesmo vir se tornando cada vez mais comum em minha rotina de trabalho no consultório, tenho sido levada a um lugar comum que me faz pensar o seguinte: em nossa sociedade não há lugar para a tristeza, para a angústia, para as tonalidades afetivas mais cinzentas.

Vivemos na era da correria, da proatividade, da ansiedade elevada a décima potência. Somos a geração da alta produtividade, dos que conseguem – ou não conseguem e vivem se culpando e sentindo-se menores por isso – fazer tudo ao mesmo tempo: trabalhar intensamente, praticar atividades físicas o máximo de vezes possível em sua semana, se alimentar bem, ter uma vida social intensa, ser bem humorado, viajar, postar sua rotina feliz (e ativa) nas redes sociais, acompanhar suas séries favoritas e ainda dormir oito horas por noite.

O mundo diz que você deve ser apaixonado por sua carreira e, devido a isto, investir o máximo de energia e tempo em suas atividades rotineiras de trabalho, exalando entusiasmo, brilho nos olhos e sorriso no rosto. Vivemos conectados com o nosso ofício, ele nos permeia, nos envolve, nos faz querer mostrar o quanto somos realizados com aquilo que fazemos. Gostar do que se faz não é problema algum, muito pelo contrário. Passamos a maior parte dos nossos dias no trabalho, então nada melhor que este nos dê prazer e satisfação, que faça sentido verdadeiramente em nossas vidas. A questão é que, quando existe o pensamento apriorístico de “ter que” é gerada uma pressão social em cima de todos nós.

É maravilhoso, e provavelmente o que todo mundo espera, gostar do seu trabalho e, além disso, seguir em uma constante de inspiração, satisfação, contentamento e produtividade. Ah, e claro, que sobre tempo e vontade de fazer tudo aquilo que as pessoas consideradas saudáveis e felizes fazem em suas horas vagas.

Acontece que alguns são pegos de surpresa por um sentimento de vazio, de falta de sentido abundante em muitas ou até mesmo todas as áreas da vida, tristeza constante que se estende por meses e mais meses, perda de prazer em praticamente tudo que o cerca, até mesmo naquilo que outrora lhes fazia tão bem. A depressão muitas vezes não tem aquele estereótipo caricato, da pessoa sem vaidade, fúnebre, isolada e que passa horas e mais horas do dia sem levantar da cama. Esses são apenas os casos mais extremos e graves. É muito possível e comum, que aquela pessoa que trabalha ao seu lado, esteja passando por este problema.

“Poxa, mas ela parecia tão bem, não poderia imaginar.”, pois é, acontece que em um mundo onde existe um apelo tão grande pelas pessoas felizes e em movimento, alguém com depressão sente-se sem lugar ou como a mais fracassada das criaturas. Na maioria dos casos de quem passa por esse sofrimento psíquico, ocorre uma cobrança interna muito grande. Levantar para ir ao trabalho ou até mesmo se reunir com a família na mesa do jantar, já demanda um grande esforço. Conforme a pessoa vai deixando de realizar atividades que antes eram super corriqueiras, sente-se pior e mais culpada. Por sentir culpa, o sentimento de tristeza e insatisfação vem com maior intensidade e então, isola-se ainda mais e vê-se cada vez com menos energia para fazer tudo aquilo que as pessoas fazem todos os dias tão naturalmente. E então, sente-se ainda mais culpada, alimentando um ciclo vicioso que pode não ter fim.

Alguém passando por esse processo, já sofre o bastante por conta de suas exigências interiores, lidar ainda com o julgamento das outras pessoas, torna-se algo insuportável. É por isso que tendem a omitir muitos detalhes do que se passa com elas, vão arrastando-se no “modo automático” para o trabalho, para o barzinho, para a festa de aniversário da melhor amiga, para o cinema, para os encontros de família. Encarar as pessoas torna-se cada vez mais ameaçador com o passar dos dias. Aceitar que precisa de ajuda e ir até um psicólogo e psiquiatra, requer coragem e força de vontade das grandes. Passado isso, tendem a prolongar ao máximo contar para as pessoas, até mesmo da família, colegas de trabalho – com quem convivem diariamente –, amigos próximos. Escuto os relatos dolorosos dos meus pacientes, contando que muitas vezes já lhe foram atribuídos adjetivos como “preguiçosos”, “egoístas”, “ingratos”, vindo das pessoas mais próximas. Cobra-se AÇÃO! Que a pessoa se mova, busque outras alternativas, não fique paralisada.

Configura-se, então, um cenário confuso e que acaba contribuindo, a meu ver, para que surjam mais e mais pessoas com depressão, como vem acontecendo. Por um lado, uma sociedade adoecida, que vende felicidade e acredita que essa é a condição que devemos buscar (e alcançar) sempre ao longo da nossa existência, além disso, devemos estampar isso nas redes sociais, para que se torne mais evidente. Neste sentido, vamos experimentando a vida sem tanta profundidade, buscando menos autoconhecimento, nos relacionando superficialmente até mesmo com quem nos é mais próximo, evitando mostrar o nosso lado frágil e passível de sofrimento. Quando, na verdade, a tristeza também tem um papel essencial na nossa existência e faz parte da mesma, não podemos negá-la, abafá-la ou fingir que não existe. Isso não só propicia que mais casos de depressão surjam, como faz com que, quem já passa pelo processo, fique ainda mais imerso no seu universo solitário e incompreendido.

Eu acredito que o caminho não seja buscar mil explicações sobre a depressão ou averiguar o porquê disso acontecer com essa ou com aquela pessoa. Muito menos acredito que sentir pena ou tratar quem está depressivo como vítima, seja boa possibilidade. Prefiro lançar mão da empatia e tentar enxergar, ainda que parcialmente, o mundo como aquela pessoa está enxergando. Quando somos empáticos, nos desnudamos de todos os preconceitos e “a prioris” que tínhamos cristalizados dentro de nós, de acordo com nossas histórias, experiências e visão de mundo. Ao conseguirmos fazê-lo, entendemos que ainda que existam 400 milhões de pessoas com depressão, cada uma viverá esse processo de maneira única, e só assim iremos até aquela pessoa de fato. Compreensão e amor nunca são demais, só fortalecem e encorajam imensamente todos a terem motivos para continuar e entenderem que, independente da forma como estejam se sentindo naquele momento, existe quem as acompanhe, compreenda e ajude a ressignificar suas dores e angústias.

Subscribe
Ana Clara Abreu
Alice Bento
Alice Bento
Ana Clara Abreu
Ana Clara Abreu
Ana Elisa Bekenn
Ana Elisa Bekenn
André Fran
André Fran
André Pereira
André Pereira
Ane Vaz
Ane Vaz
Antonio Autuori
Antonio Autuori
Arturo Edo
Arturo Edo
Beatriz Medeiros
Beatriz Medeiros
Betina Monte-Mór
Betina Monte-Mór
Betina Sanches
Betina Sanches
Brenno Quadros
Brenno Quadros
Bruna Lima
Bruna Lima
Carlos Machado
Carlos Machado
Christian Dechery
Christian Dechery
Clarice Rios
Clarice Rios
Clariza Rosa
Clariza Rosa
Cláudio Franco
Cláudio Franco
Constanza de Córdova
Constanza de Córdova
Dadi Carvalho
Dadi Carvalho
Denise Calasans Gama
Denise Calasans Gama
Diego Sousa
Diego Sousa
Eduarda Vieira
Eduarda Vieira
Emerson Cursino
Emerson Cursino
Érika Nunes
Érika Nunes
Ernesto di Gois
Ernesto di Gois
Evans Queiroz
Evans Queiroz
Fabiana Pinto
Fabiana Pinto
Fabrício Andrade
Fabrício Andrade
Fê Carvalho Leite
Fê Carvalho Leite
Fernanda Cintra
Fernanda Cintra
Fernanda Sigilão
Fernanda Sigilão
Fernando Ferreira
Fernando Ferreira
Gabi Monteiro
Gabi Monteiro
Gabriel Vasconcellos
Gabriel Vasconcellos
Gabriela Munhoz
Gabriela Munhoz
Gabriela Bispo
Gabriela Bispo
Gabriel Cortês Lopes
Gabriel Cortês Lopes
Giulia Rosa
Giulia Rosa
Giuline Bastos
Giuline Bastos
Helena Gusmão
Helena Gusmão
Ingrid Esser
Ingrid Esser
Isabela Peccini
Isabela Peccini
jeff oliveira
jeff oliveira
Jéssica Delgado
Jéssica Delgado
Joana Nabuco
Joana Nabuco
Jóta Stilben
Jóta Stilben
Jônatas Rocha
Jônatas Rocha
Julia Favero
Julia Favero
Julia Pitaluga
Julia Pitaluga
Julia Karam
Julia Karam
Juliana Perez
Juliana Perez
Juliana Ludmer
Juliana Ludmer
Juliana Ricci
Juliana Ricci
Kamila Lima
Kamila Lima
Laila Hallack
Laila Hallack
Larissa Abbud
Larissa Abbud
Laura Borba
Laura Borba
Luciana Guilliod
Luciana Guilliod
Luti Guedes
Luti Guedes
Maria Theresa Cruz Lima
Maria Theresa Cruz Lima
Gabi Alkmim
Gabi Alkmim
Mariana Ferrari
Mariana Ferrari
Mariane Sanches
Mariane Sanches
Marília Cruz
Marília Cruz
Marina Estevão
Marina Estevão
Mary Olivetti
Mary Olivetti
Mateus Habib
Mateus Habib
Matheus Martins
Matheus Martins
Matheus Freitas
Matheus Freitas
Nathalia Oliveira
Nathalia Oliveira
Nicholas Freeman
Nicholas Freeman
Nuta Vasconcellos
Nuta Vasconcellos
Paula Bohm
Paula Bohm
Paula Freitas
Paula Freitas
Paula Rosa
Paula Rosa
Pedro Mib
Pedro Mib
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
Pedro Willmersdorf
Pedro Willmersdorf
Pedro Vianna
Pedro Vianna
Priscilla Brossi
Priscilla Brossi
Rachel Schramm
Rachel Schramm
Raíssa Ferreira
Raíssa Ferreira
Renan Berlitz
Renan Berlitz
Ricardo Mattos
Ricardo Mattos
Rick Yates
Rick Yates
Silva
Silva
Tamih Toschi
Tamih Toschi
Vanessa Verthein
Vanessa Verthein
Victor Takayama
Victor Takayama
Vitória Liao
Vitória Liao
Wendy Andrade
Wendy Andrade
William Anseloni
William Anseloni

TODO MUNDO NOO