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Ainda precisamos falar sobre: Miss Brasil 2017

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Quando eu me deparei com o tema da NOO desse mês, “ação”, imediatamente me veio à cabeça aquela clássica frase: “O que te move?”. E eu me peguei pensando o que me movia. Esses dias, com a disputa eleitoral tão acirrada, com as notícias diárias de medidas do governo, com o dia a dia tão complicado que temos, uma coisa sempre volta: a representatividade. Seja por eu ser mulher, por eu ser negra, não sei, a representatividade é algo que faz parte de mim. Existir, por si só, é uma forma de resistência. A partir disso pensei em escrever sobre algo que tenho lido bastante nos últimos dias: a final do concurso de Miss Brasil. Até esse texto chegar à vocês, o concurso já vai ter passado há um tempo, mas, mesmo assim, nunca é tarde para falar sobre coisas importantes.

Quero começar dizendo que não tenho nenhum apreço por concursos de beleza. Como mulher – e como mulher negra – não sinto que esse concurso me representa de forma alguma. Não sinto que uma fileira de mulheres altas, magras e super maquiadas sendo julgadas – falando de uma maneira bem rasa – e desfilando em uma passarela seja representativo da força, beleza e importância da mulher brasileira. Mas esse texto não veio desmerecer os concursos de beleza e sim falar da representatividade que essa edição trouxe e, em se tratando de Brasil, a gente precisa estar falando disso diariamente, em todas as instâncias, todas as oportunidades.

Bom, pra contextualizar vocês, segue um pouco do que pesquisei sobre o concurso de Miss Brasil. O concurso oficial existe desde 1954, com momentos mais gloriosos sendo transmitido do Maracanãzinho e com uns anos mais decadentes após a perda de patrocínios milionários. A vencedora do concurso se torna a representante do Brasil no Miss Universo. Na década de 1960, emplacamos duas Miss Universo, as únicas até agora, Ieda Vargas e Martha Vasconcellos. A partir dos anos 2000, o concurso voltou a crescer em audiência e prestigio da mídia. Dentre as regras para concorrer, tem o fato de a candidata ter que residir no Brasil, não ser casada nem ter tido casamento anulado, não ser mãe nem estar grávida, não ter sido fotografada nua ou em cenas de sexo explicito e ter no mínimo 1,68m. As provas da final, segundo a diretora do programa: “São quatro momentos de classificação. O desfile casual, o de maiô, o de biquíni e o de gala. A quinta etapa é a das perguntas, quando a gente pode saber como elas pensam. Nas provas, elas precisam mostrar que sabem se maquiar, montar um look em 30 segundos e posar para um ensaio de fotos”.

E por que esse concurso é tão importante, Paula? Não têm inúmeras questões de machismo envolvidas nele? Sim, tem. Não é um concurso antiquado, que coloca as mulheres dentro de um padrão irreal de “feminilidade”? Com certeza. Sendo julgadas em provas focadas especialmente na estética padrão? Total. E prezando por um padrão de corpo e beleza que lutamos tanto para subverter? Sim. Mas, esse ano, o concurso veio nos mostrar um pouco mais do que o machismo recorrente da nossa sociedade. Ele trouxe algo tão presente quanto, mas que nem todo mundo vê: a tal da representatividade.

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A vencedora do concurso esse ano foi a paraense Raissa Santana. Uma negra. Surrealmente bonita. Além dela, tivemos ao todo o recorde de candidatas negras no concurso: Das 27 representantes estaduais, seis meninas são negras. Parece pouco, é pouco, mas já é alguma coisa. Ano passado, por exemplo, tivemos apenas uma negra. Curiosamente, ou não, uma das candidatas deste ano, a Miss Maranhão Deise D’Anne recebeu seu nome em homenagem a (até então) única vencedora negra do concurso, lá em 1986, Deise Nunes. Em se tratando de representatividade, isso já diz muito.

Agora você para pra pensar: O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes e 53% deles se autodeclararam negros. Ainda dentre os 200 milhões, 51% são mulheres. Ou seja, temos uma quantidade mais que considerável de mulheres negras neste país. E pela primeira vez, nos últimos 30 anos, tivemos uma vencedora negra. Isso significa que, desde que surgiu o concurso de Miss Brasil, apenas DUAS candidatas negras venceram e puderam representar o seu país, de maioria negra, no Miss Universo. Apenas duas mulheres negras, na história, puderam se mostrar “a cara do Brasil para o mundo”.

Em sua coluna n’O Globo, Flavia Oliveira descreve o concurso de uma forma que, para mim, sintetiza o que venho tentando dizer aqui: “Diante de tantas conquistas femininas no mercado de trabalho, na educação, na sociedade, é modelo antigo, saturado, ultrapassado, embolorado. Mas segue útil como espelho de uma sociedade que se acostumou a exaltar a branquitude e desprezar a negritude. Só isso explica a vitória de apenas duas negras em seis décadas.”.

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Não venha me dizer que isso é questão de gosto, porque não é. Passam a vida inteira nos mostrando que tal mulher é o ideal de beleza, e esse ideal passa longe dos traços negros. Crescemos entendendo que ser magra e de cabelo liso é o mínimo para sermos socialmente aceitas, o clássico “boa aparência” que tantas mulheres negras ouvem quando vão a uma entrevista de emprego. E aí, alisamos, tentamos esconder com maquiagem, nos vestimos de outra forma. Fazemos o possível para nos embranquecermos em meio a uma sociedade que não nos quer, não nos enxerga como belas e não nos aceita como somos. Existir podendo ser exatamente quem somos, aceitando e amando nossos traços, cor e cabelo naturais é sim uma forma de resistência. E ter Raissa Santana como a mulher mais bonita do país corrobora com toda a nossa luta diária.

E isso tudo representa que centenas de meninas negras acordaram e se viram estampadas nas capas dos principais jornais, revistas e TVs de todo o país. Que elas olharam pro lado e viram alguém, igual a elas, sendo representada como a mulher mais bonita do Brasil. Que elas puderam ver que podem sim ser bonitas, tendo cabelo crespo, tendo boca grossa, tendo nariz largo. Não importa. Termos uma Miss Brasil negra é uma vitória sim, uma vitória pequena, mas que serve pra mostrar que nossa beleza existe e que o Brasil é muito mais do que o que é exibido na mídia. Uma mulher negra pode ser o que ela quiser. De cientista da NASA à Miss Brasil. E nós seremos.

Fotos globo.com

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