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Como não disse Amyr Klink, uma mulher precisa viajar

Injusto esse título. Conheci Amyr Klink por meio de dois livros apenas, jamais pessoalmente. Não tenho base para afirmar que ele nunca sentou em um bar numa tarde em Paraty e disse para algum amigo “Uma mulher precisa viajar, Afonso. E pro Irã.” Além de que está claro que por “homem” em seu texto ele se refere ao ser humano como um todo. 

Entretanto, decidi me aproveitar da sua famosa frase, sem pedir licença, para dar título a esse relato que é sobre viajar pro Irã como estrangeira, e ser iraniana no Irã — ambos do ponto de vista de uma mulher. Do resto do famoso parágrafo do velejador, não tenho alteração a fazer, apenas ler de novo porque é agradável ao cérebro.  

Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver

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Foto por Danielle Fisher @papayaetlime

Pessoas de diferentes esquinas do mundo foram ver e tiveram a oportunidade de cruzar o desértico território iraniano e cidades tanto modernas quanto milenares durante dez dias. Vinham de diferentes cantos, entre elas uma inglesa, uma australiana, uma neozelandesa, uma americana.

Eu não sabia ao certo se era normal não sentir receio em ir sozinha para o Irã até conhecê-las. Os perfis eram diferentes, os estilos, as formas de pensar. Mas a vontade de estar naquele país era suficiente para não faltar assunto durante os chás e almoços à base de cordeiro e arroz com açafrão.

Rachel era a inglesa de Leicester e falava Farsi, a língua do Irã. Começou a aprender Farsi há dez anos — o que me fez concluir que ela começou a estudar o idioma aos 16. Por quê? “I don’t know. I’ve always been fascinated”. 

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Rachel no bairro de Darband na parte norte de Teerã

Para comprovar que havia harmonia nos assuntos das refeições, falo agora da Amanda, americana da Califórnia, e que fala russo fluentemente. Ela nunca morou na Rússia, apesar de já ter visitado o país e explorado os stãos da Ásia Central. Quando perguntei o motivo pelo qual ela quis aprender a língua, a reposta — já previsível — também incluía as palavras “fascinated” e “always”. 

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Amanda na Tumba do poeta Hafez em Shiraz

A australiana Danielle só falava inglês mesmo, mas mesmo assim eu a considerava bilíngue por ser professora de matemática de ensino médio. Ela tirava bastante fotos que conseguiam mostrar verdadeiramente a beleza das esquinas iranianas, mas a primeira foto dela no Irã não foi pra internet por sua conta: sua mãe lá da Austrália correu para fazer isso antes e escreveu algo como “and this is what happens when you raise your daughters so independently. They go to Iran”. Engraçado, parece haver algo “místico” sobre ir pro Irã, quando no fundo, muitos dos que visitam apenas o veem como um país diferente do que se espera, com pessoas autênticas e hospitaleiras, cidades sui generis, culinária com temperos íntimos da cultura local, e que, por isso e outros motivos, merece ser conhecido. 

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Danielle no café de um terraço com a vista pra cidade de Shiraz

Phillipa, a neozelandeza, que trabalha organizando as expedições no país, ria quando as pessoas perguntavam se o Irã era seguro. Ela era a que mais conhecia o país entre nós e me impressionava a forma que ela parecia se sentir em casa no território persa. Ela continua no Irã, enquanto escrevo essas palavras já do Rio, e vai pra Ucrânia em janeiro. 

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Phillipa no Jardim Fin em Kashan

Por fim, falta traçar o perfil da protagonista desse relato: a iraniana. Foram oito iranianas, na verdade, que conheci: uma engenheira mecânica, uma historiadora da arte, uma arquiteta, uma arquiteta de novo, uma barista, uma designer, uma psicóloga, uma não mais engenheira elétrica porque decidiu mudar pra odonto.  

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Iraniana trabalhando como barista em um café em Shiraz

Grande parte das oitos vezes que conversei havia um ímã que atraía o assunto para o uso do hijab. Humildemente, acho que a questão “ser mulher no Irã” vai além do uso de um lenço, mas é inegável que o hijab é a porta de entrada para conversar sobre isso. Nos poucos primeiros minutos, as locais já queriam saber — com bastante curiosidade — o que eu achava sobre ter que cobrir parte do meu cabelo com o lenço. Fui perguntada tantas vezes que minha resposta começou a se desenhar num padrão. Primeiro, respondia que de fato não me importava, mas frisava que eu sabia que usaria apenas por dez dias, então a adaptação não seria um grande problema. Segundo, como eram elas que usavam de (quente) verão a (bastante quente) verão, a opinião delas era muita mais relevante do que a minha — que voltaria ao Brasil e colocaria o hijab numa gaveta dentro do armário. 

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Meu último dia de hijab na Mesquita Nasir Al-Molk ou Mesquita Rosa

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                                                                                           Meu segundo dia de hijab, no Palácio de Golestan em Teerã. A iraniana se ofereceu pra ajeitar o meu hijab e                                                                                             desde que vi essa foto tento me lembrar a piada que ela fez durante o processo… Foto por Sam Blair.

Somando as opiniões das oito conversas que aconteceram em dias e cidades diferentes do Irã, nenhuma das iranianas disse que gostava de usar o hijab. Algumas dessas respostas vinham acompanhadas da afirmativa “se eu estivesse num avião saindo do Irã, eu não usaria”. 

Oito é um número pequeno comparado a toda uma população feminina de um país, mas um dado me chamou a atenção. Dado esse fornecido pela Elie Sheejare, a engenheira mecânica, claro, na base de seu achismo — que eu confio bastante. Ela acredita que 70% das mulheres iranianas não gostam de usar o hijab

Isso me fez pensar sobre os 30%. 

Afinal, a afirmativa “30% gostam de usar o hijab” é diferente da afirmativa “30% gostam de usar o hijab obrigatoriamente, sob uma lei governamental”. Acho que foi aí onde comecei a formar a minha opinião, ou onde ao menos encontrei a linha entre o “precisamos relativizar os valores de uma cultura diferente da nossa” e o “epa, mulheres no Irã tem a liberdade bastante limitada e isso é ruim”. 

Como falei acima, acredito que a questão de ser mulher no Irã seja mais profunda que o uso do hijab, ou mulheres não poderem dançar em público, por exemplo. Tratando de violência urbana e assédio, o Irã é assustadoramente seguro. A mulher é tratada constantemente com muito respeito, até mesmo por uma questão cultural ou religiosa: a família é considerada praticamente sagrada e a entidade da mulher também — tanto as estrangeiras quanto as próprias iranianas confirmaram — sentiram isso — sem hesitação. Ou seja, andar na rua em cidade nenhuma, em qualquer horário, foi princípio de qualquer problema.

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Iranianos na Ponte Tabiat em Teerã. O desenho da ponte foi definido por uma competição de arquitetura e quem ganhou foi Leila Araghian. Ela projetou a ponte para ser “a place for people to stay and ponder, not simply pass”. Ela tinha apenas 22 anos na época. 

Em Qom, inclusive — uma das três cidades mais religiosas de todo o Irã, ainda não decorei a ordem das três — conheci um Mulá (clérigo islâmico) que apresentou a Mesquita Hazrat Fátima. Dentro dessa mesquita, as mulheres — locais e turistas — são obrigadas a usarem não o hijab, mas o chadôr — que quer dizer tenda em farsi, não tão curiosamente. O uso do chadôr na rua não é obrigatório pelo governo, mas as mulheres de famílias mais conservadoras o vestem — inclusive a simpática estudante de engenharia elétrica que mudava pra odontologia. Eu e a australiana tivemos uma breve conversa com ela onde trocamos ideia sobre universidade, perguntamos como ela falava inglês tão fluentemente, rimos sobre como era tão evidente que eu e a australiana parecíamos turistas e, quando vi, cada vez menos o chadôr preto limitava a personalidade dela e se tornava mais natural aos meus olhos. 

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Mulheres de chadôr embaixo da ponte Khaju em Isfahan. É um popular ponto de encontro na cidade. Todo fim de tarde, homens cantam músicas tradicionais persas a capella — a acústica é boa.

Conversei com o Mulá na mesquita em Qom enquanto eu usava o chadôr, que era dado às turistas na entrada, e foi interessante ver a sua serenidade e ao mesmo tempo sutil esforço em mostrar ao estrangeiro como xiitas são, no fundo, moderados. Ele se revolta com o fato de haver países islâmicos onde mulheres não podem dirigir. Sobretudo porque ele tem certeza que o Profeta Maomé nunca disse ser contra mulheres usarem carro. A outra certeza que ele tinha era que mulheres na época que Maomé estava pela Terra, andavam, sem nenhuma restrição, de camelo. Cadê a coerência? Ele pergunta. 

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Em Shiraz na celebração de Ashura

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 Irmãos na celebração de Ashura nas ruas de Shiraz

Mesmo com esses pontos de moderação, Royiah Azejiana, designer de uma agência de viagem, que conheci enquanto visitava o palácio na praça de Esfahan respondeu “50 – 50” quando perguntei se ela gostava de morar no Irã. O motivo dos negativos 50 eram o governo, a lei islâmica — restringia a liberdade das mulheres. A resposta foi parecida quando tive essa conversa em Shiraz com a historiadora da arte que me ajudou no aeroporto. Ela deixou claro que sua única insatisfação com o Irã era o governo, que é horrível, mas que as pessoas eram incríveis. Entendi o ponto dela. 

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Discutindo os 50 – 50. Foto por Darshan Patel

Não sei ao certo o quanto isso vai parecer estúpido — ou ingênuo, mas uma das conclusões que cheguei foi que o governo do Irã e a cultura e pessoas iranianas são dois países diferentes. Fora essa conclusão, cheguei a algumas outras por aqui: viajar é necessário, sendo homem ou mulher, sendo dentro ou fora do país, principalmente para lugares que nos fazem confirmar que uma imagem projetada externamente pode ser muito diferente de uma crua — e bela — realidade vista de dentro. 

A última conclusão é nunca resumir, em qualquer cultura, uma mulher ao que ela veste. 

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