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Cazaquistão, que é diferente do Tajiquistão, que não é igual ao Quirguistão [PARTE 2]

TAJIQUISTÃO

Me disse um homem que sabia viajar — daqueles inteligentes — sobre os países da Ásia Central: “Não é só porque está perto, tem nome difícil e termina com stão que é tudo igual”.

Ele colocou em palavras o que eu sentia, mas que eu não descrevia. Vinha daí a sede de estar no Cazaquistão, mas de precisar saber o que tinha além da fronteira do país — fosse esta de areia ou de neve. Por isso, com a espontaneidade sendo a protagonista do planejamento, decidi ir para o Tajiquistão. Alguns dias depois, notei que não tinha matado a sede porque a curiosidade veio me incomodar e me perguntar o que tinha pra lá da fronteira do Tajiquistão com Quirguistão. O Cazaquistão já havia ficado para trás. 

Não espere que esse relato seja um guia turístico – até porque passei pouco tempo. Escrevo aqui, então, como foi a minha jornada — de dois rápidos dias — no Tajiquistão. 

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 Mulher tadjique com tipo de roupa usado frequentemente na capital do país.

No hostel em Almaty (Cazaquistão) fiz amigos. Eles eram da Austrália e fomos juntos pro Tajiquistão. Deu errado. Não por causa da companhia, mas por causa do tempo, nos dois sentidos da palavra. No primeiro sentido, o tempo era curto. No segundo, bem nublado, cinza, frio.

Mesmo assim chegamos na capital do Tajiquistão, Dushanbe, e pegamos uma estrada de quatro horas — que unia de forma emocionante e frequente os caminhões com os precipícios — até um lago que eu sonhava ver desde que comecei a pesquisar sobre o país. Sua água tem um raro tom turquesa e ele é margeado por uma formação única de montanhas.

Que eu não vi já que tudo estava cinza.

O lago tem o nome de Iskander Kul. “Iskander” quer dizer “Alexandre” e o lago tem esse nome por causa de Alexandre, O Grande que passou pela área com seu cavalo e se impressionou. O rei da Macedônia provavelmente não fez isso em um dia nublado.

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 Iskander Kul e um céu nublado.

Dormimos num acampamento às margens do Iskander Kul — que, no fim, tive que acreditar que era turquesa — depois de negociar por longos, mas bem longos minutos com os locais sobre o preço da hospedagem. A negociação funcionou com tradução consecutiva na seguinte ordem: falei inglês morrendo de frio com um alemão de Hamburgo que tava acampando, que falou com um tadjique da staff do acampamento que sabia falar tadjique e alemão, mas não inglês, que traduziu pro chefe tadjique da staff, que por último, ia falar um número que era o preço, em russo. Enfim, nos deram vodka no final.

No dia seguinte, partimos para voltar a Dushanbe, e pudemos passar com mais calma pelos autênticos vilarejos que apareciam de forma tímida num caminho tão rural. Era o horário das crianças irem para a escola, então havia o máximo de movimento na rua, que ao mesmo tempo, era mínimo. O silêncio e a calmaria criaram uma sensação estranha em mim — estranha, mas boa — de estar numa área tão isolada dentro de um país já relativamente isolado. Se não isolado, esquecido ou facilmente confundido com os seus vizinhos que possuem as mesmas sílabas nos nomes. 

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Homem tadjique em sua roupa tradicional.

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Crianças tadjiques indo para a escola.

Mais tarde, já no aeroporto de Dushanbe para voltar pro Cazaquistão, afinal, eu sairia de lá em três dias para o Brasil, comecei a refletir – enquanto olhava, sem de fato olhar, os voos no painel – sobre como conhecer o Tajiquistão havia tido um saldo positivo. Positivo mesmo contando os pontos perdidos com a previsão do tempo. Me despedi dos australianos que seguiriam para a Geórgia e, finalmente, parei para ler os voos no painel. Deparei-me com uma informação e sorri. Vi que o meu avião seguiria, depois de parar no Cazaquistão, para o Quirguistão. E se eu voasse até o destino final?

QUIRGUISTÃO

Voei. Por 15 dólares e 30 minutos de voo a mais. Passei dois dias, meus últimos dois da Ásia Central, na capital do Quirguistão, Bishkek, com um tempo perfeito também nos dois sentidos da palavra. O azul do céu estava forte como o da bandeira do Cazaquistão (uma das minhas bandeiras favoritas, descobri). O dia estava tão lindo que até a quadradona e fria arquitetura soviética ficou fotogênica. A capital é completamente viva, cheia de universitários e foi legal assistir a uma rodada de Liga dos Campeões com fanáticos pelo Barça, de olhos levemente puxados, que torciam em russo e quirguiz, num pub que vendia cerveja local, que nem gostei tanto, mas que serviu para ser provada. 

A cidade é amigável, bem mais acolhedora que a misteriosa Dushanbe e se tornou ainda mais querida depois que almocei num restaurante um pouco mais arrumado, onde consumi couvert, entrada, prato principal, café e paguei 4 dólares. Não, não pelo café, mas por tudo.

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Em frente a um prédio de arquitetura soviética, estudante quirguiz se comportando como um estudante de qualquer lugar.

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Dentro da universidade de Bishkek.

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Restaurante em Bishkek e mesa com reunião de trabalho ao fundo.

Tivesse mais dias, sairia pulando de país em país até ter a chance de concretizar uma ideia única do que cada país da Ásia Central tem de diferente um do outro. Pude ver o quanto a acolhedora e universitária Bishkek no Quirguistão é diferente da movimentada e ao mesmo tempo tradicional Dushanbe no Tajiquistão que, por sua vez, é completamente oposta à cosmopolita, moderna e charmosa Almaty no Cazaquistão.

Espero um dia ainda saber como essas três cidades são diferentes de Samarqand, no Uzbequistão, que apresenta uma arquitetura milenar em meio ao deserto, que, por sua vez, deve ser totalmente diferente da Asgabat, no Turcomenistão, considerado a Coreia do Norte da Ásia Central, que deve ser distinta em vários aspectos da futurística e ostentadora Baku no Azerbaijão.

Espero um dia traçar esses outros territórios, que um dia já fizeram parte da grandiosa Rota da Seda, e aprender que a Ásia Central é diferente do que eu esperava, em cada um de seus fragmentos. Quero andar em terras que façam a velocidade da minha respiração se alterar, ir a lugares inóspitos, ou então passar por cima de pegadas de pessoas tão diferentes de mim, sejam elas mochileiros australianos, torcedores quirguizes do Barcelona ou Alexandre, O Grande e seu cavalo.

Por mais paisagens como essas que passaram, ou melhor, por mais paisagens diferentes das que passaram. Por mais dias inéditos, nublados ou não. Por mais curiosidade, daquela da melhor natureza: a insaciável.

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