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O caminho de Casa e como me encontrei no TETO

ECO_Jardim Gramacho_Setembro_2016

TETO Brasil

Na confiança dos nossos passos somos capazes de fazer, às cegas, o caminho de casa. Não importa a hora do dia, de onde saímos, o cansaço mental, a distração tecnológica, chegaremos em casa em algum momento.

Essa certeza de chegar traz bem-estar em algumas situações: aquele final de dia de trabalho difícil, aquela vontade de chegar e se deitar no canto que é seu, aquele dia de chuva que lhe deixou molhado e tudo que você deseja é sua casa quentinha.

Em 2015, quando recebi uma carta de despejo, meus dias se resumiam em pensar onde eu dormiria, qual seria meu caminho de casa. Naquele momento eu percebi que havia perdido esse caminho e que junto com ele também me perdi.

Com a ajuda de familiares e amigos consegui um espaço que voltaria a chamar de casa.

Essa mudança me fez perceber que levaria um tempo para aprender o novo caminho. Além disso, a situação me mostrou o quão importante é ter um teto e o quanto não tê-lo lhe desestabiliza. A partir daí o meu pensamento se voltou para aqueles que vivem em situação de risco em relação às suas moradias.

Como o Google também oferece caminhos, resolvi pesquisar sobre trabalhos voluntários relacionados a casa e moradia. Eu queria fazer algo, por menor que fosse, para ajudar aqueles que necessitam de um lugar para morar. Foi aí que encontrei o TETO.

Era início de 2016 quando abri meu e-mail e lá estava um convite para participar de uma Reunião de Apresentação sobre o TETO. Havia me inscrito no site para receber informações sobre as próximas atividades, já que, no ano anterior, eu não havia conseguido me inscrever para a construção de casas em comunidades precárias.

teto

TETO Brasil

Resolvi participar da reunião e ver como seria. Cheguei e já achei que não daria certo. Eram jovens empolgados demais, mil abraços e gritos e achei que não me encaixaria naquele perfil.

Ainda assim, permaneci sentada ouvindo a apresentação e descobri que eles não apenas constroem casas, junto com moradores, para diminuir a vulnerabilidade em que algumas famílias vivem. Eles trabalham, também, pelos direitos daqueles que moram em favelas, por uma sociedade mais justa e sem pobreza. Achei aquilo tão utópico que precisava ver de perto como era feito esse trabalho. Preenchi o formulário e me inscrevi para ser voluntária fixa.

Após algumas reuniões, completamente perdida sobre a atuação do TETO, entre as atividades massivas e as mil siglas que eles usam, chegou a próxima construção e eu consegui me inscrever.

Foram três dias intensos de trabalho braçal para que a casa de Seu Amendoim, na comunidade de Parque das Missões (Duque de Caxias – RJ), estivesse pronta no domingo de Páscoa. Nove voluntários trabalharam nessa casa com força física e de vontade, carregando pedras, areia, água, painéis, pilotis e caibros de madeira; furando com alavancas e cavadeiras mais de dez buracos, martelando e medindo muitas e muitas vezes o que fosse necessário para que tudo ficasse perfeito.

Seu Amendoim estava conosco o tempo inteiro, ajudando como podia, carregava areia numa panela ou fazia brincadeiras para animar a todos.

Na primeira manhã, quando chegamos à comunidade, entrei em choque. Para todo lado que olhava, ficava triste. Eu não pesquisei sobre as comunidades onde eu poderia ser alocada para construir. Achei que o melhor seria ir de coração aberto. E como foi difícil assimilar uma, várias vidas naquela pobreza! Não há como não se abalar diante daquela situação. Confesso que me senti perdida. Além de não absorver aquela realidade, eu não sabia direito o que fazer naquele terreno onde a casa deveria ser construída.

Quando peguei na alavanca e comecei a fazer o primeiro buraco, minha tristeza se transformou em força, uma força que eu não tenho e não sei de onde veio.

Fiz um pouco de tudo na obra: carreguei peso, fiz buraco, martelei prego, fiz viga mestre, brinquei com crianças, conversei com moradores, fiz piadas, fiz amigos, ri, agradeci e saí, no domingo, feliz com a casa de Seu Amendoim pronta.

Ao voltar para minha casa, após três dias sem banho, quando abri o chuveiro, desabei a chorar. Chorei porque eu tinha água, chuveiro, banheiro, casa, comida. Chorei porque não deveria ser comum alguém viver sem isso. Porque não há como achar normal a situação em que vivem aquelas famílias. Porque eu sabia que a desigualdade social no Brasil é enorme, gritante, mas passar três dias encarando-a, mexe com tudo dentro de você.

Eu já não era a mesma.

A partir daí comecei a me inscrever para outras atividades. Fui “motorista” na COLETA, ajudei na CampU, apliquei enquetes para mapeamento da comunidade na ECO, participei de pintura, carreguei painéis de casas, vi filmes no CineTeto e participei de debates, cozinhei, fui a reuniões e encontros de voluntários.  Eu precisava continuar colaborando de alguma forma para o desenvolvimento das comunidades.

No decorrer de um ano como voluntária, eu sei que a cada atividade que participo algo em mim se transforma. Aprendi a ouvir, a respeitar as diferenças, a ser mais tolerante, a falar em público, e a defender com emoção a causa que me motiva. A cada atividade que participo, aprendo algo que me faz acreditar na mudança que cada um pode realizar dentro de si e na vida do outro. Acredito no transformar-se, transformando.

Passei a acreditar que não é utopia viver numa cidade onde todos tenham acesso aos direitos básicos, numa sociedade igualitária e, sim, sem pobreza.

Depois de tudo isso reencontrei o caminho de casa. Também sei chegar na casa do Seu Amendoim, do Marcos, de Joyce, Andressa, Beatriz, Dani, Fernanda, Jorge, Luciana e Sara.

Foi aprendendo o caminho para a casa deles que encontrei o meu.

Não é à toa que no TETO a gente costuma falar que cada um de nós se desconstrói para construir a mudança no mundo.

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TETO é uma organização presente na América Latina e Caribe que busca superar a situação de pobreza em que vivem milhões de pessoas nas favelas mais precárias, por meio do engajamento comunitário e mobilização de jovens voluntários. Com a implementação de um modelo de intervenção focado no trabalho lado a lado com moradores de comunidades, o TETO busca construir moradias mais dignas, promover a educação de crianças de 4 a 10 anos por meio de oficinas de leitura, e envolver toda comunidade em projetos de melhoria para seus bairros.

O TETO está presente em 19 países: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai, Nicarágua, República Dominicana e Venezuela. Há 10 anos no Brasil, a organização já trabalhou em mais de 100 comunidades, construiu mais 2.400 casas emergenciais, desenvolveu 26 projetos comunitários e mobilizou mais de 30 mil voluntários.

Nos dias 5,6 e 7 de maio, acontece a COLETA 2017: o maior evento de voluntariado da organização TETO.  Nesses 3 dias, a organização pretende levar mais de 10 mil voluntários às ruas das cidades de São Paulo, Campinas (SP), ABC (SP), Santos (SP), Rio de Janeiro, Niterói (RJ), Duque de Caxias (RJ), Curitiba (PR) e Salvador (BA), para denunciar a realidade vivida nas favelas invisíveis do Brasil e arrecadar recursos para os trabalhos desenvolvidos pela ONG.

Faça parte: teto.org.br/coleta

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