Do Rio para o mundo, uma plataforma de opiniões, sempre em busca

“Boa Noite Punpun” (Oyasumi Punpun no original) é um mangá

punpun

Ele é em preto e branco, se lê de trás pra frente e foi serializado com capítulos sendo lançados semanalmente… tipo Sailor Moon.

Se você vive no planeta terra certamente já ouviu falar dos famigerados “quadrinhos japoneses”. Acredito que você já tenha uma série de pré concepções, por vezes até bem fundamentadas, sobre o que essa mídia pode lhe oferecer. E é por isso que eu te peço para dar uma segunda chance para o formato. Oyasumi Punpun me pegou de surpresa. É claro que pela natureza comercial inerente ao modelo de publicação da mídia há vários pontos que podem ser considerados problemas. Eu diria, inclusive, que após uma reflexão posterior a obra está bem longe de perfeita. Contudo, enquanto eu observava a sua última página, com meus olhos molhados, percebi que aquela experiência havia me tocado. E, afinal, o que mais podemos esperar?

A obra escrita por Inio Asano possui 13 volumes que foram publicados ao longo de 6 anos (entre 2007 e 2013) inicialmente pela revista Weekly Young Sunday e posteriormente na Big Comic Spirits. A narrativa acompanha a vida de Onodera Punyama, um típico jovem japonês ao longo de basicamente quatro principais etapas de sua vida: o ensino primário, ensino fundamental, ensino médio e o início de sua vida adulta. Vemos através de seus olhos o seu primeiro amor, a dinâmica escolar diária, seus dramas familiares, relações interpessoais e seu posicionamento na sociedade como um todo. Nós o acompanhamos durante a sua vida e o vemos amadurecer. Inio inverte a lógica de Hemingway com sua teoria da omissão, na qual (em resumo) o “segredo” consiste em escrever apenas um oitavo do que a história realmente é, assim criando profundidade e complexidade para seus personagens. Neste mangá nós estamos lá para cada segundo, cada momento definidor da personalidade de nosso protagonista.

Podemos categorizar Boa Noite Punpun como um romance. O arco narrativo no qual os personagens principais se encaixam possui início, meio e fim e trata de um amor. Narrativa essa que traça um paralelo interessante com a lenda da princesa Orihime (no caso, a estrela Vega) e se relaciona diretamente com o festival de Tanabata (bem relevante para a cultura japonesa). Não é isso, no entanto, que me parece relevante nesta experiência. Asano constrói ótimos personagens e faz decisões estilísticas tão interessantes que parecem essenciais para o funcionamento da história.

Oyasumi_Punpun_v02_090-091

Por exemplo: o protagonista Punpun é representado como um passarinho. Com um traço extremamente simples, quase infantil. Aliás, não só ele mas todos os membros de sua família são representados desta maneira. Tal decisão a cada página se mostra mais acertada, tanto por uma questão de identificação (facilitar a projeção do leitor no personagem) quanto por uma questão de aceitação dos acontecimentos da trama. Como dito pela desenvolvedora Jenny Jiao Hsia em sua palestra ministrada na GDCPut a Face on It: The Aesthetics of Cute”, o caráter “fofo” do personagem e de sua família nos permitem aceitar acontecimentos tenebrosos que se passam na vida do protagonista. De certa forma, quase de maneira infantil, tal retratação suaviza (sem deixar de problematizar) questões sérias. Da violência doméstica a uma exposição da cultura japonesa e os reflexos que o machismo causa nessa sociedade, a história de Punpun evidencia diversos problemas sociais. Realiza isso tudo sem se distrair da leveza de um dia a dia infantil.

Ao discutir sobre o mangá, me deparei com muitas comparações à “13 reasons why”. Acredito que tal paralelo se faz devido ao caráter compartilhado de ambas as obras em que presenciamos a lenta desfragmentação de um indivíduo. Asano, no entanto, nos apresenta diversas outras histórias. E mais do que isso, nos apresenta histórias em que há redenção. Ele parte de um princípio bem interessante e extremamente nipônico. Sua argumentativa não propõe que é possível esquecer ou fingir que certas situações traumáticas não ocorreram. A história inclui traços de depressão, melancolia, ansiedade e fear of missing out claramente presentes no protagonista e outros personagens. No entanto, seguindo o raciocínio do método de kintsugi, as rachaduras de uma peça de porcelana quebrada não são escondidas e sim coladas com ouro, ressaltando-as, tornando-as seu diferencial. Cicatrizes e feridas devem ser abraçadas e encaradas de frente. E isso não é fácil, pois como o próprio autor diz: “viver é mais difícil que morrer”.

Assim como Please Like Me, Girls e Chewing Gum, Oyasumi Punpun é um excelente retrato de nossa geração. Só que em uma mídia e de uma perspectiva completamente diferentes das que estamos acostumados a ver.

Uma história sobre amadurecimento, juventude, identidade e, por que não, amor.

Subscribe
Ricardo Mattos
Alice Bento
Alice Bento
Ana Clara Abreu
Ana Clara Abreu
Ana Elisa Bekenn
Ana Elisa Bekenn
André Fran
André Fran
André Pereira
André Pereira
Ane Vaz
Ane Vaz
Antonio Autuori
Antonio Autuori
Arturo Edo
Arturo Edo
Beatriz Medeiros
Beatriz Medeiros
Betina Monte-Mór
Betina Monte-Mór
Betina Sanches
Betina Sanches
Brenno Quadros
Brenno Quadros
Bruna Lima
Bruna Lima
Carlos Machado
Carlos Machado
Christian Dechery
Christian Dechery
Clarice Rios
Clarice Rios
Clariza Rosa
Clariza Rosa
Cláudio Franco
Cláudio Franco
Constanza de Córdova
Constanza de Córdova
Dadi Carvalho
Dadi Carvalho
Denise Calasans Gama
Denise Calasans Gama
Diego Sousa
Diego Sousa
Eduarda Vieira
Eduarda Vieira
Emerson Cursino
Emerson Cursino
Érika Nunes
Érika Nunes
Ernesto di Gois
Ernesto di Gois
Evans Queiroz
Evans Queiroz
Fabiana Pinto
Fabiana Pinto
Fabrício Andrade
Fabrício Andrade
Fê Carvalho Leite
Fê Carvalho Leite
Fernanda Cintra
Fernanda Cintra
Fernanda Sigilão
Fernanda Sigilão
Fernando Ferreira
Fernando Ferreira
Gabi Monteiro
Gabi Monteiro
Gabriel Vasconcellos
Gabriel Vasconcellos
Gabriela Munhoz
Gabriela Munhoz
Gabriela Bispo
Gabriela Bispo
Gabriel Cortês Lopes
Gabriel Cortês Lopes
Giulia Rosa
Giulia Rosa
Giuline Bastos
Giuline Bastos
Helena Gusmão
Helena Gusmão
Ingrid Esser
Ingrid Esser
Isabela Peccini
Isabela Peccini
jeff oliveira
jeff oliveira
Jéssica Delgado
Jéssica Delgado
Joana Nabuco
Joana Nabuco
Jóta Stilben
Jóta Stilben
Jônatas Rocha
Jônatas Rocha
Julia Favero
Julia Favero
Julia Pitaluga
Julia Pitaluga
Julia Karam
Julia Karam
Juliana Perez
Juliana Perez
Juliana Ludmer
Juliana Ludmer
Juliana Ricci
Juliana Ricci
Kamila Lima
Kamila Lima
Laila Hallack
Laila Hallack
Larissa Abbud
Larissa Abbud
Laura Borba
Laura Borba
Luciana Guilliod
Luciana Guilliod
Luti Guedes
Luti Guedes
Maria Theresa Cruz Lima
Maria Theresa Cruz Lima
Gabi Alkmim
Gabi Alkmim
Mariana Ferrari
Mariana Ferrari
Mariane Sanches
Mariane Sanches
Marília Cruz
Marília Cruz
Marina Estevão
Marina Estevão
Mary Olivetti
Mary Olivetti
Mateus Habib
Mateus Habib
Matheus Martins
Matheus Martins
Matheus Freitas
Matheus Freitas
Nathalia Oliveira
Nathalia Oliveira
Nicholas Freeman
Nicholas Freeman
Nuta Vasconcellos
Nuta Vasconcellos
Paula Bohm
Paula Bohm
Paula Freitas
Paula Freitas
Paula Rosa
Paula Rosa
Pedro Mib
Pedro Mib
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
Pedro Willmersdorf
Pedro Willmersdorf
Pedro Vianna
Pedro Vianna
Priscilla Brossi
Priscilla Brossi
Rachel Schramm
Rachel Schramm
Raíssa Ferreira
Raíssa Ferreira
Renan Berlitz
Renan Berlitz
Ricardo Mattos
Ricardo Mattos
Rick Yates
Rick Yates
Silva
Silva
Tamih Toschi
Tamih Toschi
Vanessa Verthein
Vanessa Verthein
Victor Takayama
Victor Takayama
Vitória Liao
Vitória Liao
Wendy Andrade
Wendy Andrade
William Anseloni
William Anseloni

TODO MUNDO NOO