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Black Mirror: a realidade em que vivemos

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Os manuscritos de Carmina Burana já indicavam, em meados do séc XII, a existência de intensas e inevitáveis intempéries na vida. E o pior (ou melhor, dependendo de como se vê): sobre a necessidade de nos conectarmos com o imperfeito para sermos melhores, ou pelo menos mais resilientes a cada dia.

Carl Off, ao musicar intensamente a poesia contida em Carmina, nos atrai à reflexão do existir como sendo algo impossível, se não há perfeita proporção entre venturas e as consequentes tristezas, que segundo diziam, nada são além de ações da deusa Fortuna – dama da sorte e da esperança.

Dito isso, entramos na análise proposta no primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror, série fictícia-especulativa (e deveras distópica) sobre a sociedade moderna. Aliás, para quem não sabe, o nome “Black Mirror” faz alusão ao espelho preto de nossas telas de celular. Algo que está apagado, inofensivo, mas sempre está lá, velando os nossos dias.

O episódio é intitulado Nosedive, algo como “mergulhar de nariz” – gíria que indica uma queda drástica de algo. No universo proposto, que não é tão distante do nosso, as pessoas vivem uma espécie de realidade aumentada das redes sociais, fugindo todo o tempo de quaisquer avaliações negativas, sob risco de perderem privilégios enquanto cidadãos; e também se aproximando ou distanciando da tão sonhada alta casta social.

É como se todos estivessem em uma grande corrida de Uber, onde cada “curva malfeita” faz o proprietário perder méritos e direitos reais. Parece besteira? E se eu disser que isso pode ser aplicado no mundo real?

Pausa.

Agora vamos pensar no episódio pelos olhos do “paradoxo de Lévy”, filósofo da cibercultura. Pierre Lévy afirmava que a cultura cibernética é refém de uma premissa: ao mesmo tempo em que todos podemos alimentar o universo Web, sem quaisquer censuras, nos afastamos da veracidade em cada informação. Com isso, e agora é minha opinião, nos afastamos de nós mesmos, quando reforçarmos em nosso dia a dia uma realidade que não nos pertence.

Aliada ao bom e velho EGO humano, essa premissa faz criar um universo onde não existem imperfeições aparentes, já que as imperfeições não cabem na atual necessidade de superexposição. Ou seja, em um mundo recheado de Likes e Compartilhamentos, o que não nos maquia não nos concede uma “nota positiva”. O irreverente se torna perigoso, e o que é puramente normal nos distancia socialmente da ascensão web-social.

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Ora, ao deixar de lado as imperfeições, batemos de frente com a deusa Fortuna, e nos distanciamos da possibilidade de viver uma vida de falhas, de medos, de deslizes. Veja bem, nós VIVEMOS tudo isso, mas nos DESSENSIBILIZAMOS para o que esses problemas significam. É como tomar um Rivotril para não aguentar uma realidade crua, simples, porém exequível.

Além do mais, nos afetamos pouco com a sociedade que nos cerca e fatalmente nos tornamos seres insensíveis, presos na antítese de sermos egocêntricos a ponto de não conhecer o ambiente real que nos cerca, e disformes a ponto de repetir a vida e o comportamento de quem nos rodeia.

Acredito que qualquer psicólogo pode assegurar que compartilhar felicidade nas redes sociais não nos torna infelizes. Elas são um mundo de oportunidades, claro, e um universo realmente amplificador de nossas boas relações. Mas imergir completamente em redes sociais é distanciar-se da Fortuna, que provê, tal qual uma roda gigante – e na medida ideal a cada um – os bons e maus momentos.

É pôr à prova o que nos motiva a viver.

O autoconvencimento constante pela internet não nos torna melhores. Não funciona como o “pensamento positivo”. Não nos torna menos tristes. Pior: gera uma ansiedade para o inalcançável. A ansiedade faz a depressão, e a depressão tira a graça das expectativas, tornando-as difíceis de preencher. Perdemos o senso da realidade, e palavras como simplicidade nos parecem risíveis.

Aliás, nada mais atual do que forjar a simplicidade para parecermos ainda menos envolvidos com nosso próprio ego. E fazemos isso em um meio onde o ego é recompensado com seguidores e mais seguidores.

A resiliência e a auto aceitação do presente nos mantém focados em um mundo de concreto, completamente percorrível. E para que isso ocorra, não podemos competir com o outro universo digital.

Não depender tanto das mídias sociais nos aproxima do pouco que somos e que temos, que de tão reservado não deixa espaço sobrando além do que temos dentro do peito. E aí pegamos impulso em direção ao rompimento das fronteiras e da amplificação do nosso próprio potencial. Somos melhores, e sendo melhores, somos felizes de verdade.

Em uma escala de 1 a 10, o quanto sou viciado nessa outra realidade? E sendo muito, sou feliz? E sendo infeliz, o quão difícil será dar o primeiro passo?

A quanto tempo não encaro a Fortuna?

Bom, são só divagações. Mas em todo caso, começar por aqui seja uma grande ideia. Não é mesmo?

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